segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Educar na era digital e alguns desafios das multiliteracies


Em recente missão de trabalho ao exterior, Itália, além de atividades de pesquisa, participei de dois eventos sobre os desafios da educação contemporânea, e compartilho  algumas breves impressões a seguir.

No encontro Scholé, evento realizado em Brescia nos dias 5 e 6/9/2013, as apresentações diziam respeito ao projeto educativo para o decênio em curso e suas possíveis revisões diante dos desafios atuais, em que foram enfatizadas questões sobre: As transformações sociais e culturais da web; O desafio educativo na condição pós-midiática; A revolução do livro digital; A psicologia da leitura do texto multimídia. Entre certas obviedades e interessantes reflexões epistemológicas, o debate girou em torno da operacionalização de certas propostas educativas tendo em vista a complexidade de certos aspectos na paisagem descrita em tal cenário. Para além das discussões do evento, a possibilidade de conhecer de perto outros olhares sobre a educação italiana e a interação com colegas que buscam trabalhar com outros valores, destaco a impressão de um olhar estrangeiro que se diferencia e reconhece na diversidade de espaços e lugares da educação.  

Nesse reconhecimento, chama a atenção às críticas que o Prof. Pier Cesare Rivoltella fez em torno da "superação" do uso de termos como “nativos e imigrantes digitais”, visto que a seu ver não conseguem explicar do ponto de vista científico a complexidade das relações que as pessoas constroem na cultura digital. Da mesma forma, o destaque para as dicotomias entre impresso e digital, que reforçam distanciamentos empobrecedores quando não entendidos na dialética de tais culturas, na maioria das vezes vistas apenas como rupturas e não em suas continuidades. Tal visão reducionista desconsidera as relações entre impresso e digital, papel e bit quando a discussão privilegia apenas a questão do suporte e não a dimensão dos diferentes modelos. Ou seja, precisamos pensar além dos suportes.

Do norte para o sul da bota, a possibilidade de aprofundar certos conceitos e discussões em torno das multiliteracies com um grupo de pesquisadores italianos, australianos e americanos em evento promovido pela SIREM, Società Italiana di Ricerca sull´Educazione Mediale, e ERID LAB (Educational Research & Interaction Design), em Foggia, nos dias 9 a 11/9/2013, coordenado pelo prof.  Pierpaolo Limone (Università di Foggia) e pelo prof. Pier Cesare Rivoltella (UCSC). O encontro entre pesquisadores sobre Multiliteracies : the school among language and languages previa um intercâmbio entre os convidados para compartilhar experiências em tornos das novas tecnologias, dos modelos de ensinos inovadores, e do desenvolvimento de aprendizagens digitais no cenário internacional. Dessa troca, a possibilidade de perceber as aproximações e os distanciamentos que transcendem as fronteiras culturais para pensar "espaços de afinidades" e possíveis diálogos e pesquisa em parceria, tal como temos desenvolvido há alguns anos.

Estar próximo de referências pioneiras no campo de estudos das Multiliteracies, como Mary Kalantzis, Bill Cope e James Gee (participantes do New London Group, grupo que ainda nos anos noventa desencadeou a discussão sobre as múltiplas linguagens e a necessidade de novas alfabetizações/letramentos), e de colegas italianos que trabalham com perspectivas afins (P. Rivoltella, P. Limone, P. Rossi, F. Falcinelli, D. Parmigiani, M. Sibilio, A. Garavaglia, M. Baldassare) permite não apenas entender a atualidade de certas discussões que orientam nossas pesquisas e seus desdobramentos em diversos contextos, como também desmistificar certos "mitos". Aqui, mais uma vez, a possibilidade de conhecimento e troca entre pesquisadores fez a diferença, e gostaria de expressar meu profundo sentimento de gratidão pelo convite e pela acolhida.


Por fim, como não poderia deixar de ser, o destaque aos aspectos (inter)culturais que permitem outros tipos de aprendizagens e relações entre as pessoas, seja nas mais diversas paisagens e na beleza de sua arte e arquitetura, seja na gastronomia e nos sabores dos novos encontros. Promessas e devires... 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Participação e mídias sociais: entre faces e máscaras



Diante dos acontecimentos que estamos acompanhando nos últimos dias, os diferentes tipos de manifestação social que se espalham por diversas cidades brasileiras parece ter algumas questões em comum. Além da diversidade do conteúdo das reivindicações e dos diferentes perfis dos participantes, a indignação demonstrada, as estratégias utilizadas, e a mobilização pelas mídias sociais chamam a nossa atenção, para além do momento político e da crise de credibilidade em diversas instituições.

Muitas são as hipóteses sobre as motivações que movem cada um e seus diferentes modos de se posicionar frente aos acontecimentos: indiferença, curiosidade, dúvida,  perplexidade, indignação, vozes, silêncios, até o desejo de refletir e tomar parte. Foi com essa mistura de sentimentos que participei da manifestação ocorrida na noite de ontem em Florianópolis, que segundo alguns cálculos, apesar da chuva que caía, reuniu em torno de 30 mil pessoas nas ruas da cidade. Certamente seria interessante ter os olhares de quem está diretamente envolvido, mas são tantos e tão diversos, que a aparente falta de liderança e de definição de propostas nos deixa sem saber ao certo o que de fato está acontecendo. 

Uma impressão mais ou menos clara parece ser a de que são muitas as faces e as máscaras destes movimentos.

Olhares de estudiosos, analistas políticos, educadores, jornalistas, e das pessoas em geral têm destacado a complexidade destes movimentos e a dificuldade de identificar o que de fato está acontecendo, como disse Mario Prata em sua crônica “A passeata”, do dia 19/6/2013: “sejamos francos, companheiros: ninguém tá entendendo nada. Nem a imprensa nem os políticos nem os manifestantes, muito menos este que vos escreve e vem, humilde ou pretensiosamente, expor sua perplexidade e ignorância”.

Como um recorte possível desse não-entendimento, é importante pensar o papel das mídias sociais nessa convocação. Muitos atribuem às redes sociais grande parte da organização desse movimento, pois em vez de identificar “nomes” e “líderes” reivindica-se a organização em “redes”. No entanto, ao mesmo tempo em que isso ocorre, é importante não perder de vista que esse movimento “começou nas ruas” e que sua repercussão nas redes assumiu diferentes formas, desde a organização de novas mobilizações, convites e convocações até o compartilhamento das diferentes experiências com imagens e comentários os mais diversos das mais diferentes “tribos”. Ou seja, parece que a proporção que tal movimento foi alcançando nas redes deve-se à ressonância que o mesmo assumiu em outros espaços.

Nesse quadro, é interessante discutir as diversas formas de comunicação e participação que intensificam certas relações e que multiplicam certos espaços de sociabilidade colocando os sujeitos nas redes, seja nas ruas seja nas redes digitais, e como seus dispositivos impactam a vida cotidiana de crianças, jovens e adultos. No caso de tais manifestações sociais, o que pode ser lido como um possível aumento da consciência do outro,  vontade de conhecer, e possibilidade da participação em processos democráticos, também pode ser problematizado como apenas figuração e número, como oportunismo de certos grupos, e muitos outros motivos para além da presença “curiosidade”.

Ao mesmo tempo em que isso ocorre, alguns aspectos críticos também merecem ser discutidos: os níveis de participação considerados de “baixa definição” em que parece ser insuficiente manifestar a opinião, o contágio da multidão, a participação sem envolvimentos verdadeiros nas situações, os reais interesses diante de tanta diversidade de discursos e práticas, da indefinição de propósitos, e certa superficialidade de relações e representações dos movimentos nas redes e nas mídias.

Entre tantas hipóteses e indefinições, percebemos como o atravessamento da mídia e das redes sociais repercute em nosso cotidiano e com isso também possibilita novos modos de participação na sociedade, na cultura e por que não dizer, na escola? E por falar em escola, como será que esse momento está sendo problematizado nas discussões de sala de aula? Será que “as vozes das mídias” e seu princípio informativo ainda assumem seu caráter de “verdade inquestionável” e de “legitimidade” diante dos fatos mostrados e de “construção de realidades” ou também estão sendo entendidos como possíveis “formas de interpretação”? Que mediações desses movimentos, práticas e discursos estão sendo feitas?


Nesse intercruzamento real e simbólico dos acontecimentos, das manifestações, das práticas, dos discursos e das mediações, mais uma vez, evidenciamos a necessidade da mídia-educação como condição de cidadania “real e virtual”. A importância do pensamento crítico-reflexivo para tentar interpretar as facetas desses movimentos e suas formas de empoderamento, tanto na perspectiva de ir além do que nos “é dado a ver” como na possibilidade de construir outras formas de participação. 


quinta-feira, 30 de maio de 2013

Entre leituras e leituras



Por ocasião do Fórum catarinense do livro e de leitura  realizado em Florianópolis, no dia 27/5/2012, entre organizadores, representantes de diversas instituições (MINC, Secretaria Estadual de Cultura, Secretaria Municipal de Educação) e a diversidade de participantes com os mais variados interesses, o escritor Affonso Romano Sant’Anna foi uma das inspirações para pensar a elaboração de planos de cultura em diferentes âmbitos (local, estadual e nacional).

Com o talento da palavra que lhe é próprio, Affonso Romano falou de “leitura mas não de leitura”. Ou seja, falou dos vários entendimentos que temos a respeito de leitura e suas diversas faces, e partindo de sua trajetória explicou o que ele entende quando fala de leitura, que certamente  se diferencia de muitos outros entendimentos.

Destacou que a palavra leitura é recente, como o são tantas coisas em nosso país, tanto no vocabulário de certa elite como nas políticas públicas e nas práticas culturais. Assim, a primeira editora brasileira foi criada  em 1917, por Monteiro Lobato, e a primeira biblioteca pública infantil, em 1936, por Borba de Moraes. No entanto, a palavra leitura não era discutida. Anos mais tarde, na década de 1960, Paulo Freire criou um “método de alfabetização” em que a palavra leitura era um pressuposto, estava submersa no entendimento que a leitura de mundo precede a leitura das palavras. E finalmente em 1992, foi criada uma política pública com o Programa Nacional de Incentivo à leitura, o PROLER, vinculado ao Ministério de Cultura e à Biblioteca Nacional, que naquela época era presidida pelo escritor, Affonso Romano.

No entanto, a leitura continuou sendo pouco discutida e valorizada em nosso país, não apenas por desconhecimento, ignorância, falta de compromisso com a cultura e/ou incompetência de nossos gestores, mas também a partir dos vários entendimentos sobre o que seja leitura e sua importância. Alguns intelectuais e também gestores de instituições públicas consideram que leitura diz respeito apenas à escola; grande parte dos editores, por sua vez, falam de livros na perspectiva de mercado, não de leitura nem de leitores. E os professores e estudantes, o que entendem por leitura? Qual a presença da leitura em nossa vida e na sociedade contemporânea?

Então Affonso Romano tocou em uma questão primordial: “o lugar comum e o vício de associar leitura com prazer”. Com o desafio de ir além da idéia do “prazer do texto” ao qual Barthes se refere, ele chama atenção na associação leitura-prazer visto que nem sempre leitura significa prazer: “leitura pode ser prazer às vezes, mas leitura é  sobretudo trabalho”, pois nasceu da necessidade.

Ao narrar diversas experiências de como a leitura pode transformar a vida das pessoas, ele destacou a especificidade de certas práticas de leitura e as sensibilidades que exigem, afinal, “nem todo mundo tem tempo para Proust e nem todos possuem sensibilidade para poesia” que requer outra sintonia.

Por fim, o escritor destacou algumas situações inusitadas que abriram certas portas da leitura na vida de diferentes pessoas, sempre afirmando a importância de encontrarmos as chaves apropriadas para abrir as diversas portas que existem.
E que hoje, neste momento chave que vivemos, a tecnologia pode ser uma das chaves.

Além dos diversos modos de ler, a cultura digital propicia mais que um suporte do livro ou um espaço de leitura com inúmeras facetas multimídias. Assim, certas mídias, tecnologias e suas ferramentas podem assegurar ter a bibliotecas ao alcance da mão, com uma diversidade de repertórios inimagináveis, que envolvem desde grandes clássicos da “literatura universal” até recentes produções literárias que podem ser encontradas de forma gratuita nas redes digitais.

Certamente a cultura digital implica outros modos de ler, de ver, de saber e de habitar e temos que continuar a problematizar o que entendemos pelas diferentes práticas de leituras que essa cultura propicia. Questões básicas como as modificações no suporte (da leitura no papel impresso e nas telas), as sensibilidades do uso, manuseio e materialidade do livro impresso, as novas sensibilidades provocadas pela hipertextualidade do digital até as lógicas de leituras que operam de diferentes formas em diferentes cenários, sejam elas verticais, horizontais ou transversais e seus modos de atenção e apreensão.

Enfim, se U. Eco e J. C. Carrière estão certos ao dizer Não contém com o fim do livro, e se Affonso Romano está certo ao falar lindamente da importância de Ler o mundo e da “leitura como uma tecnologia”, com a licença poética que cabe em nossas tantas releituras, podemos dizer: enquanto uma criança estiver lendo, não contém com o fim das leituras e não das leituras...



domingo, 19 de maio de 2013

Aprendizagem colaborativa em rede




Na X Jornatec, que aconteceu nos dias 29 e 30/4/2013 em Florianópolis, fui convidada a participar da Mesa Redonda “Desafios do trabalho em rede e da aprendizagem colaborativa na cultura digital”, ao lado de Tel Amiel (Unicamp), Luli Radfaher (USP) e da mediadora Marta Borges (UDESC).

Tel Amiel  trouxe sua contribuição a partir dos eixos participação, remediação e bricolagem. Ao enfatizar que a cultura digital não é igual para todo mundo, ele apresentou dados estatísticos de diversos países e nesse sentido sua fala se aproximou de alguns argumentos que eu também costumo destacar, visto que a dimensão do acesso é apenas um aspecto da inclusão que ainda não foi resolvido, e que a distribuição de computadores não é igualitária. Destacou também a importância de continuar a pensar na mídia tradicional considerando que a noção de participação e colaboração não ocorre só no digital. E por fim, ao mencionar a necessidade de pensar a produção de conteúdos digitais, ele destacou a importância da prática do remix e do sampleamento  nas salas de aula como forma de busca e criação.

Por sua vez, Luli Radfaher  lembrou a importância da cópia no processo de aprendizagem e seu papel na invenção de “coisas novas”. Ao falar que as mudanças da sociedade nem sempre são acompanhadas por mudanças na escola, mais que repetir o mantra, ele pergunta pela construção da escola do século 21, e reforça a necessidade de pensarmos nos conteúdos digitais, destacando o digital como uma linguagem importante para aprender no sentido de minimizar o digital divide.

De minha parte, enfatizei alguns aspectos do que hoje tem sido entendido por cultura participativa perguntando o que entendemos por participar da cultura digital e quem de fato está participando, no sentido de desnaturalizar certos discursos e problematizar certas práticas. Falar de participação na cultura digital implica pensar nas formas de aprendizagem que ocorrem no espaços formais e  informais e na mediação da escola diante das modificações nas formas de aprendizagem que a cultura digital promove. Como aproximação aos aspectos que caracterizam a aprendizagem colaborativa a partir de Kaye (interdependência dos participantes do grupo, co-divisão de tarefas e organização dos processos grupais e finalidades compartilhadas a fim de construir algo novo a partir da colaboração) e destaquei as possibilidades de entender a rede a partir do que propõe Rivoltella: como ambiente de conhecimento, contexto comunicativo e lugar de compartilhamento de experiências de pesquisa.

E por falar em pesquisa, diante da pesquisa em parceria interinstitucional que estamos desenvolvendo entre UFSC, UDESC e UFBA sobre “Gestão e práticas pedagógicasno âmbito do ProUCA em SC e BA”, mencionei um dos eixos da investigação que  se refere ao apoio à criação de rede colaborativa entre os professores. A esse respeito, análises parciais sinalizam a dificuldade de o professor se articular em rede, seja devido aos limites das condições de trabalhos e tempo,  seja devido aos limites ligados à construção de competências profissionais para tal.

Por fim, o desafio: O que entendemos por  ensinar /aprender/pesquisar colaborativamente e em rede com crianças e jovens na cultura digital?



domingo, 28 de abril de 2013

O espaço do blog na formação





Na perspectiva da mídia-educação, que envolve a dimensão de “fazer/pensar” educação sobre/para, com e através dos meios, afirmamos as mídias e suas tecnologias para além de instrumentos, como cultura. Afinal, os instrumentos podem ou não serem utilizados na educação, e de qualquer forma estarão sempre sobre o “nosso controle” e "nossa intencionalidade".  Entender as mídias e tecnologias como cultura implica pensar que são mais que instrumentos, que fazem parte de nossa vida e que atravessam nossas escolhas e as formas com que construímos relações e produzimos conhecimentos.

Nessa perspectiva, podemos pensar os blogs como um canal próprio de interação, informação e discussão, e para além de uma alternativa de comunicação, podemos imaginar que seja também um importante meio para a formação. Continua crescente o uso e a criação de blogs que adentram projetos e escolas como mais uma ferramenta para registro, produção e divulgação de conhecimentos e informações as mais diversas. E parece que na mesma medida em que os blogs são criados na educação, também são abandonados, e isso ocorre por diversos motivos: seja porque o projeto acabou, a turma se desfez ou até mesmo porque não é fácil manter um blog atualizado!

Obviamente existem muitos tipos de blog, institucionais, profissionais ou pessoais, com temas e conteúdos que envolvem uma diversidade de estilos, desde diários, notícias, comentários, idéias, fotografias, até o que a imaginação do autor permitir. E a relativa facilidade e agilidade para publicar conteúdos que dispensam o conhecimento de linguagens de programação específica, como a HTML, ainda possibilita a troca através de comentários, que na maioria das vezes não são proporcionais à leitura feita. Muitos lêem, mas poucos comentam...

Da mesma forma que no mundo corporativo os executivos têm seus próprios blogs e no mundo do jornalismo os jornalistas, críticos e comentaristas possuem o seu canal próprio de informação e discussão, há algum tempo os educadores começaram a se sentir encorajados (e/ou contagiados) em adotar esse espaço como um potencial para a formação descentralizada e compartilhada. São os chamados blogs educativos, que além de opiniões e comentários configuram-se quase como um mini-portal, reunindo links e vídeos que também podem ser entendidos como fonte de pesquisa. Há também professores do ensino fundamental que utilizam o blog como forma de registro diário para comunicação com a família, e nesse caso, geralmente são fechados e direcionados, pois publicam fotos, desenhos e vídeos produzidos pelos alunos.

No entanto, ao pensar o blog em seu potencial formativo não podemos deixar de discutir sobre certos limites que eles trazem, para além do fato de “sentir refém” da continuidade e atualização. Ao permitir e publicar comentários críticos, temos a possibilidade de viver outros papéis no processo de autoria, comunicação e participação que fazem parte da formação. E isso implica também a necessidade de mediações.

Mas esse “lugar comum” descrito acima, se deve a uma provocação que me fez pensar no momento de avaliação de uma oficina sobre blog, parte do plano de ensino da disciplina Educação e Comunicação, ministrada no curso de Pedagogia: “Será que vale criar um blog com fim em si mesmo”?

A pergunta “para quê criar um blog”? não foi diretamente feita nem respondida no momento da oficina. Talvez estivesse subentendida pela leitura do texto Reflexão entre professores em blogs: passos para novas educações, de Adriane Lizbehd Halmann e Maria Helena Silveira Bonilla, e pela aceitação do grupo no momento de apresentação do plano de ensino.  

No entanto, apesar da aparente positividade da oficina aos olhares das estudantes, a pergunta continua como lição a posteriori: para quê aprender sobre e/ou criar um blog num curso de formação de professores?   



domingo, 24 de março de 2013

Defesas de verão



Quem trabalha com educação sabe que muito antes do início das aulas, diversos trabalhos fazem parte da vida acadêmica: a preparação das aulas, a continuidade das atividades de pesquisa, as reuniões intermináveis, as atividades da pós-graduação que parecem nunca tirar férias...

Nesse sentido, o ano letivo de 2013 começou antes de fevereiro com orientações, reuniões de consultoria sobre a pesquisa UCABASC, com avaliações e com a participação em 3 bancas de mestrado que merecem ser compartilhadas.

A pesquisa sobre Norma culta e ensino: uma dimensão lingüística possível, realizada por Maria Alice Baptista , no PPGL- UFSC, sob orientação do Prof. Dr. Fábio Lopes Silva . Ela discute as diferentes variedades de usos lingüísticos nos processos de ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa com alunos dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Sua dissertação traz uma análise sobre diversas atividades de produção textual realizadas no Laboratório Linguagem e Vida, do CA/UFSC, confirmando a importância da convivência com diferentes variedades lingüísticas nas atividades escolares. Na banca, a presença das professoras: Edair M.Görski e Cristine G. Severo. 

Comunicação e Educação: para uma abordagem política da identidade e diferença na escola, foi a pesquisa desenvolvida por Julia M. Leal,  no PPGCOM da UFSM, sob orientação da Profa. Dra. Rosane Rosa . Trata de uma pesquisa sobre os processos de construção de  identidade e diferença na escola, desenvolvida a partir da exibição de um curta-metragem Leonel Pé-de-Vento, no contexto do Projeto Cultural Vô Venâncio vai à escola, realizado nas escolas municipais da cidade. A partir dos pressupostos da Leitura Crítica da Comunicação, a pesquisa reafirma a importância de mediações críticas a respeito da temática da identidade e alteridade na práxis midiática e escolar. Na banca, a colega profa Vera Lucia Raddatz.

Do papel de avaliadora para orientadora, participei também da banca do trabalho Multissensorialidades e aprendizagens: usos das tecnologias móveis por crianças na escola, pesquisa desenvolvida por Lyana Thédiga Miranda,  sob minha orientação no PPGE/UFSC. Nessa pesquisa Lyana parte da  presença dos laptops em uma escola participante do PROUCA para investigar de que forma a multissensorialidade está presente nas aprendizagens e interações entre crianças e tecnologias móveis. Ela conclui que para haver aprendizagens significativas e dialógicas é necessário ir além de um modelo único para a inserção das tecnologias na escola. Na banca: P. C. Rivoltella, Elisa Q. Quartiero, Gilka Girardello e Giovani Pires. 

Três dissertações que tratam de pesquisas sobre temas que transitam pela educação, lingüística, comunicação e suas interfaces. Nas avaliações, a sutileza de olhares que atravessam os diferentes campos do conhecimento em diálogo com o trabalho.

Fazendo parte desse cenário, um sol de verão escaldante iluminava as universidades e as salas de aula quase vazias em que ocorreram as defesas. Os motivos desse “quase vazias” parecem ter sido diferentes. Para além de um calendário de reposição de aulas em fevereiro (decorrente da greve nas universidades federais em 2012), a tragédia ocorrida em Santa Maria justificava certa ausência pela dor da perda e por um luto que ainda terá seu tempo para ser elaborado na universidade e na cidade. Mas o que justificaria a pouca presença de colegas mestrandos, com exceção de amigos mais próximos, nas demais defesas?

O ritual de defesa de um trabalho acadêmico – seja ele TCC, Dissertação ou Tese – é um momento ímpar de aprendizagem e troca na vida universitária. Não apenas pela apresentação e socialização de uma pesquisa (suas perguntas iniciais, seus pressupostos e referenciais teóricos e metodológicos, suas respostas provisórias)  mas também pelos olhares e modos de argüição de cada professor da banca, seus diferentes pontos de vista sobre o mesmo trabalho, suas aproximações e seus distanciamentos. É um momento que pode ser considerado uma verdadeira aula, aula que ainda tem o privilégio de contar com a participação de outros professores conversando sobre o mesmo tema.  Parece que ainda há um longo caminho para que grande parte de mestrandos e doutorandos possam ver as defesas desse jeito...

Imagem: Corps à corps, G. Fromanger
http://www.cataloguemagazine.com/contemporary-art/magazine/selected-pieces/gerard-fromanger/ 

domingo, 17 de março de 2013

Mídia, imagem e movimento - um olhar sobre o 4 ENOME



O que temas como “Os corpos na mídia”, “Jogos digitais”, “Movimentos corporais e linguagens”, “Tecnologias em escolas do campo e em ilhas”, “Linguagem e comunicação” “Narradores e vagalumes” podem ter comum? Num primeiro momento esses temas podem ser ligados por fios que tecem reflexões sobre educação, cultura, imagem, comunicação e  movimento e em seguida podem ser ligados pelo pertencimento comum de seus autores: F. Zoboli, G. Cruz, R. Pereira, I. Munarim, F. Messa e F. Bittencourt ao Labomídia  ( coordenado por G. Pires, UFSC) e presentes no IV ENOME - Encontro Nacional do Observatório da Mídia Esportiva -realizado em São João del Rey (coordenado por  D. Mendes e M. Botti, UFSJ), em novembro de 2012. Evento que  participei apenas um dia, mas que não poderia deixar de socializar algumas questões que certos temas suscitaram no meu olhar e que ainda ecoam em mim.

Ao pensar as imagens dos corpos presentes na mídia em geral, Zoboli destaca o corpo como fetiche. Acompanhado de belas imagens da mitologia que transitam por deuses, as figuras possibilitam  ver fragmentos que nos chegam peãs imagens da mídia mostrando o corpo belo, o que vejo e como sou visto, o que tenho e modifico,  o que transforma,  morre e renasce. Imagens como rastros de corpos que a mídia elege e que acolhemos ou não.

Das imagens às experiências com jogos digitais, as possibilidades de imersão na cultura e o conceito de gamificação, através do qual Cruz destaca a importância das aprendizagens informais  que extrapolam os espaços e o conceito de gaming e que podem se construir como experiências culturais. Pistas para pensar num diálogo possível entre jogo e “letramentos digitais”.

Entre diálogos e fronteiras, Pereira e Munarim narram suas experiências no doutorado sanduíche com imagens  reveladoras das diferentes formas de participação na universidade, na escola, nas viagens de estudo, nas ilhas italianas e noutros territórios que se articulam ao pensar o movimento corporal, as tecnologias na escola e a educação física. Imagens que também comunicam  relatos de uma pesquisa em parceria desenvolvida por Messa, num belo passeio fotográfico pela Argentina.

E para finalizar essas experiências narrativas, Bittencourt traz a imaginação mais que a imagem para falar daqui e de lá, como identidades e contrastes entre Brasil e Espanha. Entre lugares e espantos, a vontade de ver vagalumes que acendem estrelas, e que o acompanham há muitos anos. Vagalumes que correm o risco de se apagarem diante dos holofotes da mídia na sociedade do espetáculo.

Diante de tantas imagens poéticas, a responsabilidade de fechar o evento com algumas considerações sobre a Mídia-educação e os desafios da escola. Para tal, três perguntas: Que crianças e jovens estamos formando no contexto contemporâneo ? A produção de subjetividades na escola permite a construção de identidades como reconhecimentos e pertencimentos? Que tipos de aprendizagens e participação na escola/cultura estamos propiciando? Um pressuposto: protagonismo e atravessamento da mídia no cotidiano e a necessidade de uma concepção ecológica de mídia-educação para entender as novas formas de aprendizagem e os novos modos de participação na escola e na cultura. E uma constatação: a crise na educação e nas instituições (instituições tradicionais não estão mais respondendo às questões identitárias de construção de sentido diante da complexidade do mundo contemporâneo). Com isso, algumas considerações sobre: contextos da mídia-educação  e cultura digital; entendimentos sobre formas de participação, produção  e aprendizagem; formas de mediação; e desafios da mídia-educação na escola e na pesquisa.

Questões e discussões para um debate que pretendia encerrar um evento, mas que ao mesmo tempo anunciava outras possibilidades de continuidade. O evento acadêmico poderia terminar aqui, mas como experiência de vínculos, de afetos e da cultura mineira continua presente nas imagens das gerais: suas cores, seus sabores, seus sotaques presentes num trem de histórias que esperam novos eventos para serem recontadas... Nesses recontos, a busca da inspiração para o ano que começa e continua!



domingo, 25 de novembro de 2012

Rádio e Educação




Pode parecer anacrônico em tempos de redes sociais digitais falar em rádio e educação. Mas não é.  O II Seminário Latino-Americano de Rádio e Educação – saberes em sintonia,  que aconteceu entre os dias 5 a 8 de novembro em Fortaleza,  promovido pela  Universidade Federal do Ceará em parceria com a ONG Catavento Comunicação e Educação, mostrou que a convergência de tecnologias e linguagens pode ser algo que ultrapassa e aproxima fronteiras.

Reafirmar o princípio da comunicação como direito humano foi o foco de diversas mesas que reuniram  experiências dos diversos contextos e países da América Latina.  A programação do evento propiciou um Panorama do Rádio Educativo, Rádio-Escola e Interação Comunitária, Desafios Atuais da Comunicação e Políticas Públicas, Rádio Educativo, Rádio Web e Educação, Comunicação e Interação Juvenil,  Cultura Escolar e Participação, mesa da qual tive a honra de fazer parte compartilhando algumas experiências desenvolvidas com rádio em projetos escolares.

Além de mesas, palestras, grupos de trabalho e oficinas que fizeram parte do evento, a diversidade de idéias e talentos do I Festival Latino-americano de Rádio Educativo foi a possibilidade de conhecer formas alternativas de produção radiofônicas e intervenção sonora dos mais diferentes lugares com pessoas de todas as idades. Parte de tais experiencias pode ser vista no blog do evento.

Um encontro cruzando olhares, vozes e experiências provindos das universidades, ONGs, escolas, coletivos, rádios comunitários  e muitos outros representando países como Argentina, Colombia, Uruguai, Bolívia, Venezuela, Peru, Equador, e obviamente, o Brasil. Nomes como Gabriel Kaplun, Carlos Rodrigues Brandão, Deisimer Gorczevski, Alma Montoya se alternavam com desconhecidos contando suas histórias provindas desde as vozes da selva amazônica até o pampas.

Se o afeto e a diversidade foram algumas marcas que fizeram parte dos saberes em sintonia, um legítimo Forró Pé de Serra selou o encontro numa mistura de ondas, ritmos e danças híbridas com balanços nordestinos e caribenhos.  

A gentileza presente em todos os momentos do evento, o carinho na acolhida e permanência dos convidados foi um “detalhe” que não deixou de ser reconhecido por todos.  E por isso, deixo registrado esse carinho com imensa gratidão a toda equipe organizadora, particularmente a Edgard, Thiago, Luana e Lac  compartilhando pequena amostra de tudo que recebemos de lembrança para levar. 


Entre saberes e sabores, as poesias do lugar, as texturas do algodão bordado, os desenhos em areia colorida, os doces (cocadas, rapaduras) o caju, e a cachaça da terra para completar a sintonia. Afinal , ninguém de ferro, não é mesmo? 


terça-feira, 30 de outubro de 2012

Cultura digital e suas marcas em práticas e eventos



Entre os meses de setembro e outubro de 2012 participei de três eventos no campo da educação e comunicação com a temática da cultura digital exercendo funções de curadoria, organização, palestrante e comentarista. Compartilho algumas impressões.

No Educasul, realizado no CentroSul de Florianópolis, no dia 3/9/2012, o prof. James Paul Gee (Arizona State University), durante a conferência sobre Educação na Era Digital, ao chamar a atenção para a pergunta: Por que as crianças aprendem melhor fora da escola? recorre a Paulo Freire para argumentar que ensinamos de maneira errada ou ruim. Imagens, ações, experiências estão colocados no mundo antes da palavra e assim, as crianças começam a aprender com o mundo e ler primeiro o mundo. Ao oferecer esse mundo às crianças, Gee ficou interessado em pesquisar os videogames porque segundo ele, são ferramentas que colocam as crianças no mundo. Para ele, o videogame pode atuar como um portal em que as crianças interagem com imagens, constroem suas vivências e experiências, enfrentam a solução de problemas e assim elas vão aprendendo num percurso que vai das experiências do mundo às palavras. Sendo projetado para mudar conforme os jogadores vêem o mundo, os videogames propiciam novas possibilidades de ver e resolver os problemas, e não seria isso que as escolas deveriam fazer? Pergunta ele.

Nessa mesma linha de raciocínio, a professora Elisabeth Hayes (Arizona State University) destaca o videogame como apoio à aprendizagem nesse percurso da leitura para escrita no mundo digital, visto que hoje é necessário saber ler, interpretar e atuar no mundo digital também. Afinal, pergunta ela: o que as crianças estão fazendo com as tecnologias digitais? De que forma estão usando? Estão entendendo essa ferramenta para além do que foi programado, como o videogame? Estão usando também para certas formas de ativismo e  militância social? Elas têm essas competências? De que forma as crianças estão sendo empoderadas para tal? E responde dizendo que a tecnologia digital pode estar reforçando  as desigualdades, e aqui também traz o olhar de Paulo Freire para pensarmos que independente da renda e condição social, as crianças aprendem mais sobre as tecnologias digitais fora da escola.

No IV Seminário de Pesquisa em Mídia-Educação e I Seminário UCABASC, realizado no Centro de Eventos da UFSC nos dias 10 e 11/09/2012,  a Profa Maria Florencia Ripani, do Ministério de Educação da Cidade de Buenos Aires também destacou os paradigmas da cultura digital e as mudanças  nos processos culturais  mencionando  o dialogismo de Paulo Freire a partir da necessidade de diálogo e mediação entre homem-mundo-tecnologias. Recuperando a importância da multimodalidade na produção de sentidos, Florencia destacou a experiência do Plan Sarmiento como um Plano Integral de Educação Digital. Aliás, mais do que integrar as escolas portenhas à cultura digital, o objetivo é inovar as escolas, e para tal o Plano desenvolveu uma implementação pedagógica junto com a implementação tecnológica. As estratégias de inovação parecem ter começado com formação e acompanhamento de professores, e envolve grupos de formadores e multiplicadores, conselhos consultivos, redes de supervisores, oficinas, intercâmbio de experiências e produções colaborativas, festival digital, participação das famílias e muitos outras ações de forma a integrar o trabalho, produzir e compartilhar conteúdos e experiências.  Com isso, aos poucos parecem estar mudando a aprendizagem e a escola.

Após discutir algumas questões sobre o Plan Sarmiento com o PROUCA,  Nelson Pretto,  Maria Helena Bonilla,  Elisa Quartiero e eu  apresentamos aspectos de uma pesquisa em desenvolvimento sobre Gestão e Práticas Pedagógicas no âmbito do PROUCA em BA e SC. Considerando que as políticas públicas de inserção das tecnologias da escola na perspectiva de uma inclusão digital, social econômica e cultural envolvem uma complexidade que também diz respeito à discussão sobre o marco civil da internet, os direitos autorais, o software livre, etc. , só iremos enfrentar  tais questões “se criarmos redes de relações”, diz Pretto. Ao mesmo tempo, o desafio de pensar além do cotidiano da sala de aula só vai repercutir em formação cidadã se tal processo estiver ancorado em uma apropriação significativa dos conhecimentos na perspectiva de um pertencimento instrumental, social e cultural. Para isso, pensar a especificidade dos processos de aprendizagem no contexto da cultura digital só tem sentido se implicar em práticas pedagógicas e sociais transformadoras. E apesar de encontrarmos certos indícios de algumas experiências autorais, colaborativas e cidadãs, parece que ainda estamos longe de construir outras perspectivas e ultrapassar certas fronteiras da inclusão digital por diversos motivos...

E por falar em fronteiras, o prof. Marcelo Buzzato  traz essa discussão do ponto de vista da linguagem, tecnologia e sociedade para pensar o letramento e as redes digitais e sociais. Ao destacar a cultura digital e a escola, enfatiza valores, tecnologias e métodos que transitam no conceito de inovação destacando o remix autoral, a mistura popular/massa, digital/não digital, homem/máquina e outros que Gilka Girardello  costura com autoria narrativa infantil e imaginário midiático. Para ela, na dimensão dialógica do discurso narrativo a autoria se parece com o jogo do contar, e traz o exemplo da fanfiction.

Diante de tantas questões que instigaram o nosso pensar, ao discutir os direitos autorais e sua relação com a educação e a cultura digital, o prof. Marcos Wachowickz  enfatiza que nossa legislação atual é das mais restritivas do planeta e que os direitos autorais protegem mais o intermediário que o autor. E como fica essa questão no contexto das novas mídias, novos cursos e novas práticas de pesquisa e autorias na universidade? pergunta ele. E responde dizendo que estamos diante do desafio de buscar novas formas de pensar as formas produzidas não proprietárias, de construir e produzir conhecimentos que realmente sejam retribuídos à sociedade, diz ele. A dificuldade é mudar a cultura da universidade, e toda mudança de paradigma parece ter sido sempre complicada.

Da ilha de SC para Porto de Galinhas, a 35ª Reunião Anual da ANPED foi a consolidação dessas e outras inquietações. O que nós estamos fazendo com as redes e o que as redes estão fazendo com nós? pergunta a profa. Lucia Santaella no início de sua fala sobre Construções intersubjetivas nas redes digitais, encomendada pelo GT Educação e Comunicação. Entre passagens sobre a idéia da aprendizagem ubíqua, do poder emergente das redes, da subjetividade humana e sua polifonia na subjetividade coletiva, das identidades múltiplas, da cultura participativa e do potencial para a educação, chamou a atenção o destaque para o valor do erro com respaldo em Oswald de Andrade, para quem errar significa a possibilidade de corrigir depois. O interesse é no ser humano, no que está acontecendo com ele e nos processos de ensino-aprendizagem pós-revolução digital, diz Santaella, destacando a necessidade de reinventar cotidianamente, pois vivemos um tempo em que não há mais tempo para nostalgia.

E sem nostalgia, mas com saudades dos tantos encontros que tais eventos propiciam, a singela beleza de ver o reconhecimento a tantos mestres que fizeram e fazem a história da educação em nosso país serem premiados com o Troféu Paulo Freire  Certeza de que esses eventos são momentos que não apenas nos ensinam, mas deixam marcas ...  



quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Sobre representações de infâncias no cinema



Em junho de 2012 tive o prazer de participar da banca examinadora da tese  Representações da infância no cinema: ficção e realidade, de Francisca Rodrigues Lopes, defendida no Curso de Doutorado em Comunicação e Semiótica, PUC/SP, sob orientação da Profa. Dra. Leda Tenório  da Motta. E ao encaminhar algumas discussões no Núcleo de Aperfeiçoamento e Diversificação de Estudos, NADE, sobre Cinema, Infância e Educação, em uma turma da Pedagogia da UFSC, lembrei desse trabalho e sua temática.  

Cruzando as fronteiras entre infância e cinema,  Francisca tece suas reflexões teóricas sobre representações da infância no cinema  de uma forma inteligente e original, em que a abordagem dos estudos da infância a partir da filosofia de  Comenius, Montaigne, Rosseau coloca-se ao lado dos estudos do cinema (Metz, Aumont) da semiótica (Pierce, Greimas), transitando pela psicanálise e por outros cenários da cultura.

O corpus analisado envolve os 5 filmes considerados renomados (diretor e crítica) e clássicos com narrativa do tipo realístico (drama e melodrama) que foram selecionados para análise e descrição: Cinema Paradiso, (Giuseppe Tornatore, Itália , 1988), As cinzas de Angela (Alan Parker, EUA, 1999), O brinquedo proibido(René Clement, França, 1952), A vida é bela(Roberto Benigni, 1997) e  O balão branco (Jafar Panahi, Irã, 1995). O diálogo entre cinema, infância e representações vai se construindo com densidade sem perder a leveza, revelando as sensibilidades que o cinema pode criar..

A infância escolhida na maioria dos filmes não é a da fantasia e tal como instiga o Prof. José Paulo Fiks, poderíamos nos perguntar o que esses filmes representam no campo da pedagogia.

Aliás, será que os filmes hoje representam a criança?  Muitos trazem uma infância que não é mais infantil, e se por outro lado, o cinema de certo modo se infantilizou, a noção de agência da criança foi se modificando. E talvez o cinema tenha uma nova representação de infância ou uma nova fantasia... Mas se a infância está mudando, até que ponto o cinema consegue representar as tantas condições de infâncias que vivem as crianças hoje?

Entre distração, contemplação e reflexão, Benjamin diz que o valor do culto e exposição da obra de arte na era da reprodutibilidade técnica se desloca, mas não desaparece. Assim, a relação do cinema com a realidade pode ser considerada a mesma que a do cinema com a criança, e apesar de o cinema também incluir uma visão idealizada, o modo como representamos o mundo também é a realidade.

O cinema e a infância criam demandas, vontade de ver, curiosidade que nasce e satisfaz. O cinema satisfaz, mas satisfaz por que, pergunta o Prof. Oscar Cesarotto, que responde pelo viés da  psicanálise: porque aponta para o coletivo, sonhos e fantasias, produções do inconsciente e histórias. A narrativa do cinema cria histórias como uma maquinaria de sentido. Ou seja, o cinema satisfaz porque as histórias que ele conta se referem a algo em torno do aqui e agora. Um signo que desperta algo.

E entre tantos despertares, qual seria o limite do representável? Há algo que deve ser preservado das crianças? O que se pode ou não mostrar dessas representações de infância e criança no cinema? 

Imagem: cena do filme O brinquedo proibido (René Clement, França, 1952)