quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Entre juventudes, movimentos, experiências, redes e afetos


Nada como começar o semestre com um evento sobre juventude para revigorar os ânimos e a esperança! Foi o que aconteceu com a participação no VII Simpósio Internacional sobre Juventude Brasileira, nos dias 14 e 15/8/17 na Universidade Federal do Ceará em Fortaleza, e  em diversos espaços culturais da cidade. Entre tantas ações que o evento desencadeou, o destaque para uma programação intensa, com muitas atividades - simpósios, mesas-redondas, grupos de trabalho, mostras culturais - sobre temas da juventude e relações étnico-raciais, saúde, violência, conflitos, territórios, movimentos sociais, gênero, sexualidade, arte, cultura, trabalho, educação, consumo, novas mídias e muitos outros. Além disso, a criação da Associação Rede JUBRA.

A escolha do tema Juventudes: movimentos, experiências, redes e afetos  foi resultado de uma consulta aos jovens na fan page,  sobre “o que é ser jovem hoje” e o que eles julgavam importante para ser discutido no evento. Essa escolha é muito interessante, pois  revela não apenas a intenção de dialogar com os jovens  sobre de seu universo de interesses e motivações, mas também reforça e demonstra a forte presença dos jovens na elaboração e realização do evento. Afinal, não é muito comum em eventos acadêmicos contar com a participação de interlocutores e parceiros que são também sujeitos e objetos de pesquisa sobre o tema em questão.

Entre movimentos e deslocamentos, experiências compartilhadas, construção e fortalecimento das mais diversas redes movidas pelo desejo e pela emoção de estarmos juntos, foi possível conhecer e construir espaços de encontro e discussão.  Na mesa  sobre Juventudes e Educação,  em que participei juntamente com o Prof. Juarez Dayrel (UFMG) e a Profa. Rosane Castilho (UFG),  as reflexões transitaram por temas como A Contra-reforma no Ensino Médio, e ações educativas com jovens, em que Dayrell pontuou  a ambiguidade de nossa realidade social e a efervescência dos movimentos sociais juvenis com a ocupação nas escolas em tempos tão sombrios, ressaltando sempre o cuidado para não cairmos no fatalismo nem abrir mão da esperança; esperança que por sua vez também foi objeto da reflexão da Rosane, quando compartilhou aspectos de sua pesquisa de pós-doutorado sobre Projeto de vida e visão do futuro de jovens secundaristas das periferias de Goiania, Lisboa e Madrid, e destacou algumas aproximações e diferenças entre esses jovens, para quem o futuro é luta, receio e incerteza. A esse respeito, um pequeno parentese (a conferência de abertura também evidenciou que essa desesperança é transcende as fronteiras, pois estudiosos evidenciam em diferentes contextos e os jovens também estão percebendo que estamos  deixando a eles um mundo pior do que aquele que recebemos de nossos pais. E o mais grave é que se os estudos geracionais apontam que há diversas gerações havia uma perspectiva de melhora, isto parece não se configurar neste momento. Isso me lembrou uma palestra de Francesco Tonucci que assisti em Brescia em 2005, em que ele constatava e denunciava tal aspecto  em relação ao legado que estávamos deixando às crianças). 

E na continuidade desse fio condutor invisível que teceu nossas participações na referida mesa, comecei minha fala Jovens, cultura e educação: dispositivos da arte e da tecnologia na escola com algumas perguntas : Que jovens  estamos formando ? Que mundo estamos construindo/deixando como herança presente e futura aos jovens hoje e em devir? A produção de subjetividades na escola permite  a construção de identidades como reconhecimento e pertencimentos? De que modo os currículos escolares dialogam com as culturas juvenis? Que novas metodologias podem aproximar as aprendizagens formais e informais? E em busca de respostas possíveis, destaquei algumas imagens como retratos multifacetados dos jovens e  suas percepções diante dos processos de sociabilidades, tecnicidades e subjetividades para situar as culturas juvenis nos mais diferentes cenários e territórios, sua estreita ligação com as mídias e as tecnologias e as possibilidades de diálogos com a escola.

Afinal, se o perfil das culturas juvenis é a multiplicidade, como a escola  e seus currículos lidam com a perspectiva mídia-educativa e as novas formas de cidadania propiciadas pela cultura digital? Ao destacar a importância de novas linguagens, novos letramentos, novas atenções e novas metodologias, situei algumas experiências de pesquisa com crianças e jovens estudantes em que evidenciamos tais aspectos  a partir dos dispositivos da arte, do corpo e das tecnologias na escola, de modo a articular e/ou desencadear interessantes processos formativos e investigativos. Processos que consideramos como indícios de compreensão que tornam [inte]legíveis certas narrativas construídas nos grupos de pares expressando  leveza e capacidade de ação que também promovem experiências de aprendizagem, solidariedade, protagonismo e participação.

Como todo evento é encontro, foi lindo rever alguns colegas, e mesmo diante de uma programação tão rica e intensa encontrar um tempo para sair com pessoas queridas e atualizar conversas, projetos e parcerias. Nesse sentido, minha imensa gratidão ao carinho dos organizadores e aos momentos de troca com Andrea Pinheiro, Flávio Paiva e sua mais recente produção, Bulbrax: sociomorfologia cultural de Fortaleza – um livro poético e musical que sintetiza um aprendizado de vivências, culturas e canções por meio de potentes reflexões, entre as quais, a originalidade do conceito proposto no título, entendido “como representação do momento em que ocorre um ato de alteridade no estabelecimento dos vínculos entre campos de sentido na vida urbana”.  Sem dúvida, um belo presente!!


segunda-feira, 29 de maio de 2017

O céu ainda é azul, você sabe...

O céu ainda é azul, você sabe...  é o título da mostra de um conjunto de trabalhos de Yoko Ono, que ficou em exposição de 01/4 a 28/5/2107 no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Com trabalhos realizados desde o início da carreira da artista, ainda na década de 1950, as obras de caráter experimental enfatizam a participação do público que atravessa obras visuais, música, vídeo, instalações, performances e outras ações multimídias percorrendo temas de movimentos pacifistas, feministas e muitos outros em torno da cultura pop e da arte contemporânea.

Instruções é simplesmente instigante, um convite ao ver-pensar-sentir-tocar-ouvir-pintar-escrever-interagir das mais diversas formas. Aliás, a arte pioneira de Yoko criou um novo tipo de relação com o espectador/público, que é solicitado a exercer papel ativo diante de suas produções, o que propicia outras formas de diálogo entre arte, artista, público, num espaço que atua como dispositivo desencadeando interações que modificam a obra, o espaço e nos modificam.

As propostas das instruções na mostra oscilam entre sugestões sucintas, breves e abertas que podem se realizar após a leitura, como por exemplo: Imagine (1962), Sinta (1963), Sonhe (1964); entre sequências de ações que podem ser realizadas por quem se interessar, como por exemplo: Pintura para colorir. Acrescente cor (1966),  Peça de Toque (1963), “toquem uns aos outros”; Mapa Imagine a Paz (2003), “peça o carimbo e cubra o mundo de paz”; e entre sugestões  que transitam entre o racional, poético ou imaginário, como por exemplo: Peça Terra V. “Assista ao por do sol. Sinta a terra se movendo” (1996); Peça cidade I. “Encontre um lugar confortável para você. Mantenha o lugar limpo. Pense sobre o lugar quando estiver longe” (1996).  Entre as proposições, “escreva suas memórias sobre a sua mãe” e muitas outras. Difícil resistir. Não é à toa que alguns sugerem que seu trabalho foi inspiração para a composição de Imagine, de John Lennon.

Embora já conhecesse parte da proposta da artista em outra ocasião, nesta mostra, a “Àrvore dos pedidos para o mundo”, assumiu outro sentido para mim, sobretudo ao lado de outras tantas instruções em que crianças, jovens e adultos interagiam tão à vontade. Entrei no jogo, empilhei pedras, vi o invisível, escrevi pedidos, pintei as cores, o vento, colei peças de louças quebradas, martelei pregos, vi, ouvi, senti, comuniquei, e sobretudo, aprendi e me emocionei... Uma oportunidade ímpar e marcante, para além da contemplação  visual e sonora, em que a fugacidade de cada gesto permanece e deixa marcas,  interpela e também inspira. Travessias entre palavras, ideias, participação "criativa", provocações que só a arte contemporânea faz...

Nesse sentido, a arquitetura do lugar assume destaque, sobretudo por ser no prédio do Instituto Tomie Otake. Aliado a isso, outro aspecto que compõe as cenas é a disposição dos objetos, que ficam expostos no museu e também são difundidos na internet e nas redes,  disseminando as instruções, fotos, filmes, e outros que, impulsionados por diversas tecnologias contribuem para espalhar a natureza efêmera da obra e de nossa experiência com ela.

Vale destacar que a proposta de atuação do Núcleo de Cultura e Participação do Instituto Tomie Othake.  realiza um belo e importante trabalho visando a promoção do acesso e da experimentação do público  em atividades artísticas e culturais, seja por meio de visitas mediadas,  práticas em ateliês, seja por meio de atividades de formação, grupos de estudos, seminários, oficinas, mostras, e intervenções poéticas na cidade e uma imensa diversidade de projetos socioculturais. Sem dúvidas, uma riqueza de oportunidades que unem arte, cultura e educação a partir de diferentes perspectivas, vivências e experiências com arte. O céu ainda é azul, você sabe...  é apenas uma delas.


Para o curador da mostra, Gunnar B. Kvaran, a arte de Yoko Ono lida com a própria natureza da arte e, também, com sua crença de que existe um futuro melhor, “se assim quisermos". E parece que queremos, ainda mais diante de uma semana tão intensa e da urgência de pintar esse mundo com outras palavras e gestos para quem sabe, criar outras realidades…

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Entre literacias, mídia, cidadania e "aprender nas nuvens"


Por uma nova consciência do espaço público. Esse foi o tema do 4.Congresso Literacia, Media e Cidadania,  que aconteceu em Porto nos dias 5 e 6 de maio de 2017. Desde o início do evento foi possível perceber uma programação diversificada, com olhares de vários lugares para o tema, como por exemplo, a Rede de Bibliotecas Escolares, o Plano Nacional de Leitura, a Comissão Nacional da Unesco, Jornalistas, Políticos, Ativistas, Educadores e obviamente, Professores e Pesquisadores da Universidade. Aliás, vale destacar a primorosa atuação da Profa. Sara Pereira na coordenação do Congresso e a peculiaridade do Grupo Informal de Literacia para os Media, GILM, que além de organizador do evento, tem como objetivo trazer para o espaço público a educação para a mídia, e junto com ela, discutir essa nova consciência, seus desafios, potencialidades e riscos com profissionais de diversos campos e áreas de atuação  A esse respeito, a ênfase em padrões éticos, de respeito pela dignidade e pelos direitos humanos, bem como pelas liberdades de expressão e de participação foi uma constante no evento.

Na conferência inicial, La consciência publica en la nueva esfera midiática: el riesgo de la desigualdade creciente en alfabetización mediática,  José Manuel Perez Tornero, da Universidade Autônoma de Barcelona, destacou tanto o horizonte da alfabetização midiática – em que Portugal está sendo exemplo de diálogo, concentração e mudança ao unir a competência midiática com aspiração de cidadania  como direito nos espaços de comunicação. Ao mencionar a crise da esfera pública, da conversação pública e maquinaria do engano, da conversação social, bem como a vigilância  massiva e o controle dos espaços públicos com a ilusão de que somos livres, também discutiu o contexto da pós-verdade e suas implicações. A esse respeito, Tornero enfatizou que os modelos de alfabetização midiática não bastam, que precisamos mais para empoderar as instituições sociais e reinventar a esfera pública.

O tema da  Sessão Plenária 1 foi sobre “Literacia da Imagem e do Cinema”, com ênfase na cidadania visual e em diversos projetos do Instituto do Cinema e do Audiovisual, com Filomena S. Pereira, e do Plano Nacional de Cinema, com Elsa Mendes, além do Prof. da UCP e Crítico de Televisão Eduardo Cintra Torres. A Sessão Plenária 2  foi sobre “Formação e Boas Experiências em Educação para os Media”, a qual tive a honra de participar como convidada apresentando um pouco de nossas práticas de pesquisa e formação no âmbito da mídia-educação e das multiliteracias na cultura digital. Vale destacar a participação do Prof. José Azevedo, da Universidade do Porto, sobre os primeiros passos para uma convergência da literacia midiática e literacia digital, que conclui com uma provocação que afeta a todos nós, destacando que “há muita participação, pouca ação e nenhuma mudança significativa”. Por sua vez, entre as diversas experiências e reflexões, a Profa. Isabel Nina, da Rede de Bibliotecas Escolares - inspirada em Saramago “se podes olhar, vê. Se podes ver, repara” -destacou as oportunidades e os desafios formativos para promover níveis de educação para os media nas bibliotecas escolares. E por fim, Margarida Saco falou sobre a Campanha Nacional contra o Discurso do Ódio, que tem como objetivo promover educação para os direitos humanos on e off line a partir da cidadania digital dos jovens. A esse respeito, ela destacou a construção de outros discursos e práticas e um vídeo feito por jovens que faz parte da campanha, Uma história sobre gatos, unicórnios e discurso do ódio . Na Sessão Plenária 3, Por uma consciência do espaço público, o Prof. de Filosofia da Universidade de Lisboa, Viriato S. Marques, falou sobre Verdade Felicidade, Eficácia Política: O Desafio Triangular da Cidadania Pletórica (Des) Ordem Mediática em Curso. Entre a diversidade presente nas comunicações e nas demais atividades foi possível circular e conhecer diversas pesquisas  e um discurso que chamou a atenção foi a desmistificação em torno dos “nativos  digitais” e A educação para os Media na era Trump, em que Manuel Pinto discutiu o desafio dos educadores diante dos caminhos ou da ausência de caminhos, e o processo de mudança e os novos sinais que se mostram necessários.

O encerramento do evento, com apresentação da Associação Cultural Gambozinhos, foi um tributo ao Prof. Paquete de Oliveira, com depoimentos emocionantes que me fizeram admirá-lo mesmo sem tê-lo conhecido! Enfim, um congresso que se destacou pela pluralidade de ideias e de lugares da reflexão ao reunir professores e pesquisadores do campo da comunicação e educação, bibliotecários, jornalistas, políticos, filósofos e muitos outros estudiosos e ativistas que atuam em espaços da cultura, como cinema, museu e outras instituições. Essa riqueza e diversidade que caracterizou o congresso está muito coerente com os propósitos da GILM, além de ser um belo exemplo de trabalho em rede que pode inspirar muitas outras experiências.

Como num intensivo, um dia depois iniciava o Challenges 2017 com o tema Aprender nas Nuvens, evento que aconteceu entre os dias 8 e 10 /5/2107, na Universidade do Minho, em Braga, onde também apresentei trabalho. A 10. edição do evento, é fruto de um trabalho que foi se consolidando ao longo de vinte anos, e que costuma reunir pesquisadores portugueses, brasileiros e de muitos outros países que tem discutido as tecnologias na educação em suas mais diversas abordagens. Paulo Dias, Bento Silva, Cristina Ponte,  Edmea Santos foram alguns dos nomes presentes no evento, que teve como conferência principal, What we're learning about teaching computing,  proferida pelo Prof. Miles Berry, University of Roehampton (UK). Nessa fala, o professor enfatizou o pensamento computacional e sua presença curricular nos mais diversos níveis de ensino na Inglaterra, ou seja, a importância de ensinar programação desde os 5 anos de idade. Grande parte dos argumentos  utilizados ressaltavam quase os mesmos aspectos elencados em apresentação da SIREM 2016, que discuti em post de março de 2016. Uma evidência da importância de Papert, da elaboração e resolução de problemas, das estratégias utilizadas, a peer instruction, do conectivismo e do uso de códigos para prever comportamentos em programação. Os desafios da pesquisa a esse respeito estão só no início, mas já contamos com muitos elementos para pensar e problematizar diversas questões.


Enfim, eventos científicos e acadêmicos que são ocasião de formação, atualização e encontros entre colegas e amigos que reencontramos e outros que fazemos. Desse modo, não poderia deixar de registrar a generosidade do Prof. Manuel Pinto e a carinhosa acolhida portuguesa. Afinal, estar em Portugal é quase como sentir-se em casa...