sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Viagens e fronteiras, realidades e ficções.

Entre algumas reflexões sobre diversos eventos brevemente compartilhados neste espaço, dois momentos particularmente especiais que ainda ressoam em  desconcertantes tentativas  de significar presente e passado merecem um pequeno registro.

A leitura de um fragmento de um livro, que misteriosamente foi parar em minhas mãos enquanto estava na livraria de uma estação a espera de um trem durante uma viagem de estudo (compartilhada no post de setembro). O fragmento dizia algo mais ou menos assim, em livre tradução :

“A viagem – no mundo e sobre o papel -  é por si um contínuo preâmbulo, um prelúdio de algo que  sempre ainda está por  vir e sempre ainda está atrás da esquina; partir, parar, voltar atrás , fazer e desfazer malas, anotar  a paisagem que, enquanto se atravessa, foge, se desfaz e se recompõe como uma sequencia cinematográfica, com as suas dissolvências e reorganizações, ou como um vulto que muda no tempo (...)
Viajar ensina a desorientação, a sentir-se sempre estrangeiro na vida, mesmo na própria casa, mas ser estrangeiro entre estrangeiros é talvez o único modo de ser verdadeiramente irmãos(...)
 Existem lugares que fascinam porque parecem radicalmente diferentes e outros que encantam porque, já na primeira vez, resultam familiares, quase um lugar natal. Conhecer é muitas vezes, platonicamente, reconhecer, é o emergir de algo talvez ignorado até aquele momento mas acolhido como próprio. Para ver um lugar, ocorre revê-lo. O conhecido e o familiar, continuamente redescoberto e enriquecido, são a premissa do encontro, da sedução e da aventura; a vigésima ou a centésima vez em que se fala com um amigo ou se faz amor com uma pessoa amada são infinitamente mais intensas que a primeira. Isso vale também para os lugares; a viagem mais fascinante é um retorno, como a odisseia, e os lugares de percurso usual, os microcosmos cotidianos atravessados por tantos anos, são um desafio ulissíaco. “Porque passeia por estas terras?”pergunta na famosa balada de Rilke, o porta-estandarte  ao Marquês que está ao seu lado. “Para retornar”, responde o outro”.  (L’infinito viaggiare, de Claudio Magris).

Desnecessário explicar os tantos sentidos das diversas viagens e travessias que fazemos, mas essa metáfora me parece extremamente poderosa para expressar tudo que aprendi e aprendo cada vez que viajo, retorno ou chego a algum lugar...

E já que não existe viagens sem que atravessemos fronteiras, sejam elas geográficas, sociais, lingüísticas, culturais, psicológicas e tantas outras que poderíamos listar,  por que não dizer das fronteiras do pensamento? Ou mais precisamente, dos apontamentos sobre Realidade e Ficção, anotados a partir da fala do psicanalista e escritor Contardo Calligaris, nas Fronteiras do Pensamento, na ilha de SC, outubro de 2013.

Com seu estilo que lhe é tão próprio, parece saber que qualquer palavra, gesto ou olhar pode traduzir pequenos/grandes deslizes ou revelações que por vezes podem ser excessivos, mas sempre coloridos com as tintas das narrativas que vivemos, contamos e inventamos para nós mesmos e para os outros. 

Entre lembranças, devaneios e afirmações, suas palavras me tocaram e ainda tocam de várias maneiras. Poeticamente, quando tangenciam afetos e sentimentos com os quais me identifico, e de forma prosaica quando percebo as neuroses e psicoses que também fazem parte do cotidiano de todos nós. Nesse contraste, o lugar da ficção pode ser definidor, pois para ele, a ficção também pode ser uma unidade de medida: “Entre realidade e ficção, o valor épico de uma vida que vale a pena ser contada...” 

Para ele, talvez as ficções possam ser algo parecido com o delírio, inclusive na função de orientar no mundo. Nesse caso, o cinema e a literatura podem ter um papel muito especial, pois assistir ou ler a vida de certos personagens ou apenas de alguém que é outra pessoa pode ser não apenas uma forma de revelação para os outros, mas sobretudo para nós mesmos. E destaca: "Indico obras de ficção ou filmes porque acho que ali as pessoas vão encontrar maneiras para se situar no mundo".  

Mas o desejo de viver de tal maneira que nossa vida valesse a pena ser contada, recontada ou até mesmo inventada... pode nos levar às escolhas inusitadas diante do imponderável da vida. E aqui, trago novamente as palavras Calligaris, agora escritas por ele (o som, a fúria e as cartas ) referindo-se a diversas histórias de possíveis encontros e desencontros que foram e ou poderiam ter sido, dizendo: “Penso nos convites que recuso, nos livros de estreantes que deixo de ler, nas amizades que não vingam".

E entre Magris, Calligaris e muitos outros que me inspiram e compartilham histórias, para além de livros, convites, viagens, estudos, encontros construídos, recusados ou não acontecidos em 2013, o desejo de que boas surpresas e bons (re)encontros possam continuar a ser vividos, contados e/ou inventados em 2014...

domingo, 8 de dezembro de 2013

UCA na Bahia e em Santa Catarina

    


O que o Programa Um Computador por Aluno promoveu de mudanças na escola na prática pedagógica? Após dois anos de trabalho a respeito do PROUCA na Bahia e em SC, os resultados da pesquisa desenvolvida em parceria interinstitucional entre UFSC, UDESC e UFBA foram apresentados no II Seminário UCABASC, (Des)caminhos de uma Política Pública?, evento que aconteceu na UFBA, Salvador, nos dias 3 e 4/12/2103. O evento contou com a participação dos coordenadores da pesquisa, Elisa M. Quartiero/UDESC, Maria Helena Bonilla e Nelson Pretto/UFBA, Monica Fantin/UFSC, de interlocutores como  Tania Hetkowski/UNEB, Adriana Bruno/UFJF, Tel Amiel/UNICAMP, Lindomar Boneti/UFPR, e Paulo Cysneiro/UFPE, além do consultor internacional da pesquisa, Pier Cesare Rivoltella, da Università Cattolica di Milano, e de professores e diretores das escolas participantes da pesquisa.

Durante o evento, foram discutidos os diversos olhares sobre o Programa, com análises sobre a gestão macro e micro(como o programa foi criado e implantado entre as instâncias do governo federal, estadual e municipal até chegar às escolas), sobre a prática pedagógica (olhares de professores e alunos sobre o latpop na sala de aula) e sobre a possibilidade das redes de trabalho colaborativo. Além de observação participante para acompanhar o cotidiano escolar, durante a pesquisa foram desenvolvidas algumas intervenções didáticas em determinadas escolas envolvidas no programa, tanto com formação de professores quanto com propostas pedagógicas em sala de aula. Também foram realizados questionários, entrevistas e grupos focais envolvendo gestores, professores e alunos.

O evento também inaugura uma proposta de apresentação de resultados da pesquisa pouco comum na área da educação em nosso país ao discutir as análises com colegas professores e pesquisadores convidados a fazer comentários e também com professores que participaram da pesquisa nas escolas. A diversidade de práticas encontradas revela singularidades e também certas regularidades presente nos diferentes cenários investigados, diluindo certas fronteiras por um lado e destacando as diferenças sócio-econômicas e culturais  por outro.

Entre algumas constatações, evidenciamos problemas infraestruturais com os equipamentos/laptop (pouca memória, tela pequena), falta de manutenção e reposição de laptop, precária banda larga nas escolas. Nos depoimentos dos professores, destacamos a dificuldade inicial com a máquina, o modelo de formação adotado no programa e os desafios da inserção da tecnologia na sala de aula para que realmente se configure em mudança e inovação na perspectiva de uma inclusão digital que seja também social e cultural. A maioria dos usos do laptop em sala de aula se refere à pesquisa e produção textual em múltiplas linguagens (escrita, imagética, audiovisual), blogs e outras atividades. Para alguns professores, a prática pedagógica continua a mesma que antes se fazia com computadores na sala informatizada, para outros, houve uma mudança na metodologia de trabalho e para outros ainda, faz pensar diferente.

Para a maioria dos alunos que participaram da pesquisa, a escola com o UCA ficou mais divertida e a preferência de usos do laptop se evidencia nas motivações que a tecnologia promove nos jogos e nas interações em redes sociais. Além da dimensão de acesso e inclusão pela posse do laptop para levar para casa, verificamos que em contextos de exclusão e privação econômica, o “uquinha” - como é chamado por alguns - pode fazer a diferença no sentido de pertencimento. Em outras situações, a exigência é por uma máquina “de verdade” e “moderna” com acesso à rede e com velocidade. Entre algumas sugestões dadas, a dica para que o programa se amplie para outras escolas e que os professores utilizem mais o laptop em suas aulas.

Algumas tensões nas falas de professores e alunos evidenciam certas dificuldades diante dos limites da máquina, e certos dilemas sobre os usos do laptop e das redes sociais em sala de aula com o argumento da perda de foco, da falta de atenção dos alunos e do uso ou não de filtros ou bloqueios.  Também destacamos o desafio da articulação entre os saberes e as práticas culturais dentro e fora da escola com o uso do laptop no contexto da cultura digital.

Entre tantas questões a serem aprofundadas, observamos que tais considerações não são exclusivas desta realidade investigada e referendam resultados encontrados em outras pesquisas desenvolvidas no país e no exterior, o que nos leva a problematizar as políticas públicas que seguem o mesmo formato há anos e anos ... e o que é ainda mais preocupante, sem considerar os resultados das pesquisas feitas. Nesse sentido, visando contribuir com tal discussão, o II Seminário produziu a Carta de Salvador para a sociedade brasileira e para o Ministério da Educação.

E para tentar responder a pergunta do início do post, uma pérola que sintetiza diversas análises na singela fala de um menino que quando perguntado sobre o que havia mudado na escola com o UCA, respondeu algo mais ou menos assim: “continua igual, só está mais tecnológica”. 
Sem comentários!!!

Mas como nem só de análises e discussões formais se constrói um evento científico, não poderia deixar de registrar a importância dos momentos informais e dos encontros que fortalecem os vínculos e outros olhares para a diversidade de questões em pauta. Entre as luzes, as cores e as boas energias da baía de todos os santos e dos orixás, os encontros em confrarias, acquas, pós-tudos e paraísos tropicais com seus inusitados sabores e sotaques que certamente permanecem na “memória coletiva” do evento e que anunciam outras continuidades possíveis... 

Por fim, minha gratidão pelos belos momentos vividos junto a este e outros grupos que fizeram parte dessa história.

  

terça-feira, 8 de outubro de 2013

O Programa Um Computador por Aluno em discussão na ANPED


PROUCA: pesquisas sobre as políticas educacionais no Brasil e America Latina,  esse foi o tema do trabalho encomendado para o GT Educação e Comunicação da 36ª Reunião Anped, entre os dias 29/9 e 2/10/2013 na Universidade Federal de  Goiania. Apesar de inicialmente prever a participação de pesquisadores do Brasil e de países vizinhos, a Mesa Redonda aconteceu com a participação de Lucila Pesce, sobre pesquisa desenvolvida em escolas de SP, com a minha participação, a partir da pesquisa interinstitucional “Gestão e práticas pedagógicas no âmbito do Programa UCA: desafios e estratégias à consolidação de uma política pública para a educação básica”, UCABASC, desenvolvida em SC e na BA em parceria entre UFSC, UDESC e UFBA.  Compartilho algumas considerações sobre a discussão desse tema no evento.

Ao contextualizar este momento de avaliação do ProUCA, não podemos perder de vista que se trata de um piloto a respeito uma política pública de implantação de tecnologias na escola no modelo 1:1, ou seja, um computador por aluno, que envolve em torno de 320 Escolas de Ensino Fundamental, 113.385 alunos e 7.025 professores em nosso país. Entre os princípios anunciados, consta a “inclusão digital de aluno e professor na sociedade do conhecimento” e o “uso pedagógico do laptop pautado na mobilidade, conectividade e imersão a partir do modelo 1:1 melhora a aprendizagem e construção do conhecimento”.

Entre confrontos e avanços evidenciados por Lucila, o destaque para a realidade plural e suas múltiplas variáveis, em que experiências exitosas não representam a totalidade das escolas investigadas. Interessante observar certas aproximações com o que observamos em nossa pesquisa em outros contextos socioculturais sugerindo que as dimensões sociais, econômicas e culturais, a questão da formação e a especificidade das escolas podem fazer toda a diferença, tanto em relação aos “resultados esperados” como ao que se entende por “inclusão digital”.

Uma questão que apareceu no debate e que se evidencia também na maioria das pesquisas sobre o tema é o problema da qualidade do equipamento, a falta de manutenção e a precária infraestrutura em termos de conexão nas escolas. Isso demonstra que grande parte das escolas pesquisadas não estão conectadas e que os laptops não estão sendo usados (apesar de certos dados estatísticos oficiais). Nesse quadro, o modelo 1:1 está em cheque, visto que sem a manutenção e/ou reposição dos equipamentos, em alguns casos os alunos dividem o uso do laptop configurando modelos como 1:3, 1:4, 1:5. Além disso, sem entrar no mérito dos usos e na qualidade do trabalho desenvolvido, percebe-se uma ênfase na tecnologia que por vezes  desconsidera a aprendizagem, como se a tecnologia por si só assegurasse formas de apropriação e participação crítica e criativa na cultura digital.

Enfim, muito temos a discutir sobre essas e outras questões, a partir de diversos pontos de vista, político-pedagógico-econômico-cultural, suas articulações e implicações. Neste momento chamamos a atenção para o risco e o “equívoco” de se repetir políticas públicas de inserção de tecnologias nas escolas e seus modelos de formação, tal como está acontecendo com os tablets, quando se muda apenas o nome dos programas e as tecnologias, repetindo a conhecida frase “muda a tecnologia mas as práticas continuam as mesmas”.  E isso nos leva a perguntar como as políticas públicas tem dialogado com as produções acadêmicas e/ou resultados de pesquisas para contribuir de fato e/ou repercutir em “avanços” nos futuros projetos?

Diante  de certas visões deterministas da tecnologia e da naturalização  dos processos, parece difícil perceber o que de fato está acontecendo na perspectiva da transformação das práticas políticas e pedagógicas. O que realmente o ProUCA avançou nas transformações escolares, curriculares, metodológicas? O desafio de explorar o potencial pedagógico do artefato implica considerar o trabalho com as diferentes linguagens e mídias dentro e fora da escola na perspectiva cultural da mídia-educação e da cidadania, e isso nos leva a pensar o ProUCA  e sua possível continuidade articulada com outras discussões que tem interpelado nossa atuação, tais como o marco civil da internet, as leis do direito autoral, o software livre, a valorização do trabalho docente, e tantas outras questões que também foram objeto de discussão na Anped. Tanto nos momentos das reuniões formais, como nos encontros casuais...

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Educar na era digital e alguns desafios das multiliteracies


Em recente missão de trabalho ao exterior, Itália, além de atividades de pesquisa, participei de dois eventos sobre os desafios da educação contemporânea, e compartilho  algumas breves impressões a seguir.

No encontro Scholé, evento realizado em Brescia nos dias 5 e 6/9/2013, as apresentações diziam respeito ao projeto educativo para o decênio em curso e suas possíveis revisões diante dos desafios atuais, em que foram enfatizadas questões sobre: As transformações sociais e culturais da web; O desafio educativo na condição pós-midiática; A revolução do livro digital; A psicologia da leitura do texto multimídia. Entre certas obviedades e interessantes reflexões epistemológicas, o debate girou em torno da operacionalização de certas propostas educativas tendo em vista a complexidade de certos aspectos na paisagem descrita em tal cenário. Para além das discussões do evento, a possibilidade de conhecer de perto outros olhares sobre a educação italiana e a interação com colegas que buscam trabalhar com outros valores, destaco a impressão de um olhar estrangeiro que se diferencia e reconhece na diversidade de espaços e lugares da educação.  

Nesse reconhecimento, chama a atenção às críticas que o Prof. Pier Cesare Rivoltella fez em torno da "superação" do uso de termos como “nativos e imigrantes digitais”, visto que a seu ver não conseguem explicar do ponto de vista científico a complexidade das relações que as pessoas constroem na cultura digital. Da mesma forma, o destaque para as dicotomias entre impresso e digital, que reforçam distanciamentos empobrecedores quando não entendidos na dialética de tais culturas, na maioria das vezes vistas apenas como rupturas e não em suas continuidades. Tal visão reducionista desconsidera as relações entre impresso e digital, papel e bit quando a discussão privilegia apenas a questão do suporte e não a dimensão dos diferentes modelos. Ou seja, precisamos pensar além dos suportes.

Do norte para o sul da bota, a possibilidade de aprofundar certos conceitos e discussões em torno das multiliteracies com um grupo de pesquisadores italianos, australianos e americanos em evento promovido pela SIREM, Società Italiana di Ricerca sull´Educazione Mediale, e ERID LAB (Educational Research & Interaction Design), em Foggia, nos dias 9 a 11/9/2013, coordenado pelo prof.  Pierpaolo Limone (Università di Foggia) e pelo prof. Pier Cesare Rivoltella (UCSC). O encontro entre pesquisadores sobre Multiliteracies : the school among language and languages previa um intercâmbio entre os convidados para compartilhar experiências em tornos das novas tecnologias, dos modelos de ensinos inovadores, e do desenvolvimento de aprendizagens digitais no cenário internacional. Dessa troca, a possibilidade de perceber as aproximações e os distanciamentos que transcendem as fronteiras culturais para pensar "espaços de afinidades" e possíveis diálogos e pesquisa em parceria, tal como temos desenvolvido há alguns anos.

Estar próximo de referências pioneiras no campo de estudos das Multiliteracies, como Mary Kalantzis, Bill Cope e James Gee (participantes do New London Group, grupo que ainda nos anos noventa desencadeou a discussão sobre as múltiplas linguagens e a necessidade de novas alfabetizações/letramentos), e de colegas italianos que trabalham com perspectivas afins (P. Rivoltella, P. Limone, P. Rossi, F. Falcinelli, D. Parmigiani, M. Sibilio, A. Garavaglia, M. Baldassare) permite não apenas entender a atualidade de certas discussões que orientam nossas pesquisas e seus desdobramentos em diversos contextos, como também desmistificar certos "mitos". Aqui, mais uma vez, a possibilidade de conhecimento e troca entre pesquisadores fez a diferença, e gostaria de expressar meu profundo sentimento de gratidão pelo convite e pela acolhida.


Por fim, como não poderia deixar de ser, o destaque aos aspectos (inter)culturais que permitem outros tipos de aprendizagens e relações entre as pessoas, seja nas mais diversas paisagens e na beleza de sua arte e arquitetura, seja na gastronomia e nos sabores dos novos encontros. Promessas e devires... 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Participação e mídias sociais: entre faces e máscaras



Diante dos acontecimentos que estamos acompanhando nos últimos dias, os diferentes tipos de manifestação social que se espalham por diversas cidades brasileiras parece ter algumas questões em comum. Além da diversidade do conteúdo das reivindicações e dos diferentes perfis dos participantes, a indignação demonstrada, as estratégias utilizadas, e a mobilização pelas mídias sociais chamam a nossa atenção, para além do momento político e da crise de credibilidade em diversas instituições.

Muitas são as hipóteses sobre as motivações que movem cada um e seus diferentes modos de se posicionar frente aos acontecimentos: indiferença, curiosidade, dúvida,  perplexidade, indignação, vozes, silêncios, até o desejo de refletir e tomar parte. Foi com essa mistura de sentimentos que participei da manifestação ocorrida na noite de ontem em Florianópolis, que segundo alguns cálculos, apesar da chuva que caía, reuniu em torno de 30 mil pessoas nas ruas da cidade. Certamente seria interessante ter os olhares de quem está diretamente envolvido, mas são tantos e tão diversos, que a aparente falta de liderança e de definição de propostas nos deixa sem saber ao certo o que de fato está acontecendo. 

Uma impressão mais ou menos clara parece ser a de que são muitas as faces e as máscaras destes movimentos.

Olhares de estudiosos, analistas políticos, educadores, jornalistas, e das pessoas em geral têm destacado a complexidade destes movimentos e a dificuldade de identificar o que de fato está acontecendo, como disse Mario Prata em sua crônica “A passeata”, do dia 19/6/2013: “sejamos francos, companheiros: ninguém tá entendendo nada. Nem a imprensa nem os políticos nem os manifestantes, muito menos este que vos escreve e vem, humilde ou pretensiosamente, expor sua perplexidade e ignorância”.

Como um recorte possível desse não-entendimento, é importante pensar o papel das mídias sociais nessa convocação. Muitos atribuem às redes sociais grande parte da organização desse movimento, pois em vez de identificar “nomes” e “líderes” reivindica-se a organização em “redes”. No entanto, ao mesmo tempo em que isso ocorre, é importante não perder de vista que esse movimento “começou nas ruas” e que sua repercussão nas redes assumiu diferentes formas, desde a organização de novas mobilizações, convites e convocações até o compartilhamento das diferentes experiências com imagens e comentários os mais diversos das mais diferentes “tribos”. Ou seja, parece que a proporção que tal movimento foi alcançando nas redes deve-se à ressonância que o mesmo assumiu em outros espaços.

Nesse quadro, é interessante discutir as diversas formas de comunicação e participação que intensificam certas relações e que multiplicam certos espaços de sociabilidade colocando os sujeitos nas redes, seja nas ruas seja nas redes digitais, e como seus dispositivos impactam a vida cotidiana de crianças, jovens e adultos. No caso de tais manifestações sociais, o que pode ser lido como um possível aumento da consciência do outro,  vontade de conhecer, e possibilidade da participação em processos democráticos, também pode ser problematizado como apenas figuração e número, como oportunismo de certos grupos, e muitos outros motivos para além da presença “curiosidade”.

Ao mesmo tempo em que isso ocorre, alguns aspectos críticos também merecem ser discutidos: os níveis de participação considerados de “baixa definição” em que parece ser insuficiente manifestar a opinião, o contágio da multidão, a participação sem envolvimentos verdadeiros nas situações, os reais interesses diante de tanta diversidade de discursos e práticas, da indefinição de propósitos, e certa superficialidade de relações e representações dos movimentos nas redes e nas mídias.

Entre tantas hipóteses e indefinições, percebemos como o atravessamento da mídia e das redes sociais repercute em nosso cotidiano e com isso também possibilita novos modos de participação na sociedade, na cultura e por que não dizer, na escola? E por falar em escola, como será que esse momento está sendo problematizado nas discussões de sala de aula? Será que “as vozes das mídias” e seu princípio informativo ainda assumem seu caráter de “verdade inquestionável” e de “legitimidade” diante dos fatos mostrados e de “construção de realidades” ou também estão sendo entendidos como possíveis “formas de interpretação”? Que mediações desses movimentos, práticas e discursos estão sendo feitas?


Nesse intercruzamento real e simbólico dos acontecimentos, das manifestações, das práticas, dos discursos e das mediações, mais uma vez, evidenciamos a necessidade da mídia-educação como condição de cidadania “real e virtual”. A importância do pensamento crítico-reflexivo para tentar interpretar as facetas desses movimentos e suas formas de empoderamento, tanto na perspectiva de ir além do que nos “é dado a ver” como na possibilidade de construir outras formas de participação. 


quinta-feira, 30 de maio de 2013

Entre leituras e leituras



Por ocasião do Fórum catarinense do livro e de leitura  realizado em Florianópolis, no dia 27/5/2012, entre organizadores, representantes de diversas instituições (MINC, Secretaria Estadual de Cultura, Secretaria Municipal de Educação) e a diversidade de participantes com os mais variados interesses, o escritor Affonso Romano Sant’Anna foi uma das inspirações para pensar a elaboração de planos de cultura em diferentes âmbitos (local, estadual e nacional).

Com o talento da palavra que lhe é próprio, Affonso Romano falou de “leitura mas não de leitura”. Ou seja, falou dos vários entendimentos que temos a respeito de leitura e suas diversas faces, e partindo de sua trajetória explicou o que ele entende quando fala de leitura, que certamente  se diferencia de muitos outros entendimentos.

Destacou que a palavra leitura é recente, como o são tantas coisas em nosso país, tanto no vocabulário de certa elite como nas políticas públicas e nas práticas culturais. Assim, a primeira editora brasileira foi criada  em 1917, por Monteiro Lobato, e a primeira biblioteca pública infantil, em 1936, por Borba de Moraes. No entanto, a palavra leitura não era discutida. Anos mais tarde, na década de 1960, Paulo Freire criou um “método de alfabetização” em que a palavra leitura era um pressuposto, estava submersa no entendimento que a leitura de mundo precede a leitura das palavras. E finalmente em 1992, foi criada uma política pública com o Programa Nacional de Incentivo à leitura, o PROLER, vinculado ao Ministério de Cultura e à Biblioteca Nacional, que naquela época era presidida pelo escritor, Affonso Romano.

No entanto, a leitura continuou sendo pouco discutida e valorizada em nosso país, não apenas por desconhecimento, ignorância, falta de compromisso com a cultura e/ou incompetência de nossos gestores, mas também a partir dos vários entendimentos sobre o que seja leitura e sua importância. Alguns intelectuais e também gestores de instituições públicas consideram que leitura diz respeito apenas à escola; grande parte dos editores, por sua vez, falam de livros na perspectiva de mercado, não de leitura nem de leitores. E os professores e estudantes, o que entendem por leitura? Qual a presença da leitura em nossa vida e na sociedade contemporânea?

Então Affonso Romano tocou em uma questão primordial: “o lugar comum e o vício de associar leitura com prazer”. Com o desafio de ir além da idéia do “prazer do texto” ao qual Barthes se refere, ele chama atenção na associação leitura-prazer visto que nem sempre leitura significa prazer: “leitura pode ser prazer às vezes, mas leitura é  sobretudo trabalho”, pois nasceu da necessidade.

Ao narrar diversas experiências de como a leitura pode transformar a vida das pessoas, ele destacou a especificidade de certas práticas de leitura e as sensibilidades que exigem, afinal, “nem todo mundo tem tempo para Proust e nem todos possuem sensibilidade para poesia” que requer outra sintonia.

Por fim, o escritor destacou algumas situações inusitadas que abriram certas portas da leitura na vida de diferentes pessoas, sempre afirmando a importância de encontrarmos as chaves apropriadas para abrir as diversas portas que existem.
E que hoje, neste momento chave que vivemos, a tecnologia pode ser uma das chaves.

Além dos diversos modos de ler, a cultura digital propicia mais que um suporte do livro ou um espaço de leitura com inúmeras facetas multimídias. Assim, certas mídias, tecnologias e suas ferramentas podem assegurar ter a bibliotecas ao alcance da mão, com uma diversidade de repertórios inimagináveis, que envolvem desde grandes clássicos da “literatura universal” até recentes produções literárias que podem ser encontradas de forma gratuita nas redes digitais.

Certamente a cultura digital implica outros modos de ler, de ver, de saber e de habitar e temos que continuar a problematizar o que entendemos pelas diferentes práticas de leituras que essa cultura propicia. Questões básicas como as modificações no suporte (da leitura no papel impresso e nas telas), as sensibilidades do uso, manuseio e materialidade do livro impresso, as novas sensibilidades provocadas pela hipertextualidade do digital até as lógicas de leituras que operam de diferentes formas em diferentes cenários, sejam elas verticais, horizontais ou transversais e seus modos de atenção e apreensão.

Enfim, se U. Eco e J. C. Carrière estão certos ao dizer Não contém com o fim do livro, e se Affonso Romano está certo ao falar lindamente da importância de Ler o mundo e da “leitura como uma tecnologia”, com a licença poética que cabe em nossas tantas releituras, podemos dizer: enquanto uma criança estiver lendo, não contém com o fim das leituras e não das leituras...



domingo, 19 de maio de 2013

Aprendizagem colaborativa em rede




Na X Jornatec, que aconteceu nos dias 29 e 30/4/2013 em Florianópolis, fui convidada a participar da Mesa Redonda “Desafios do trabalho em rede e da aprendizagem colaborativa na cultura digital”, ao lado de Tel Amiel (Unicamp), Luli Radfaher (USP) e da mediadora Marta Borges (UDESC).

Tel Amiel  trouxe sua contribuição a partir dos eixos participação, remediação e bricolagem. Ao enfatizar que a cultura digital não é igual para todo mundo, ele apresentou dados estatísticos de diversos países e nesse sentido sua fala se aproximou de alguns argumentos que eu também costumo destacar, visto que a dimensão do acesso é apenas um aspecto da inclusão que ainda não foi resolvido, e que a distribuição de computadores não é igualitária. Destacou também a importância de continuar a pensar na mídia tradicional considerando que a noção de participação e colaboração não ocorre só no digital. E por fim, ao mencionar a necessidade de pensar a produção de conteúdos digitais, ele destacou a importância da prática do remix e do sampleamento  nas salas de aula como forma de busca e criação.

Por sua vez, Luli Radfaher  lembrou a importância da cópia no processo de aprendizagem e seu papel na invenção de “coisas novas”. Ao falar que as mudanças da sociedade nem sempre são acompanhadas por mudanças na escola, mais que repetir o mantra, ele pergunta pela construção da escola do século 21, e reforça a necessidade de pensarmos nos conteúdos digitais, destacando o digital como uma linguagem importante para aprender no sentido de minimizar o digital divide.

De minha parte, enfatizei alguns aspectos do que hoje tem sido entendido por cultura participativa perguntando o que entendemos por participar da cultura digital e quem de fato está participando, no sentido de desnaturalizar certos discursos e problematizar certas práticas. Falar de participação na cultura digital implica pensar nas formas de aprendizagem que ocorrem no espaços formais e  informais e na mediação da escola diante das modificações nas formas de aprendizagem que a cultura digital promove. Como aproximação aos aspectos que caracterizam a aprendizagem colaborativa a partir de Kaye (interdependência dos participantes do grupo, co-divisão de tarefas e organização dos processos grupais e finalidades compartilhadas a fim de construir algo novo a partir da colaboração) e destaquei as possibilidades de entender a rede a partir do que propõe Rivoltella: como ambiente de conhecimento, contexto comunicativo e lugar de compartilhamento de experiências de pesquisa.

E por falar em pesquisa, diante da pesquisa em parceria interinstitucional que estamos desenvolvendo entre UFSC, UDESC e UFBA sobre “Gestão e práticas pedagógicasno âmbito do ProUCA em SC e BA”, mencionei um dos eixos da investigação que  se refere ao apoio à criação de rede colaborativa entre os professores. A esse respeito, análises parciais sinalizam a dificuldade de o professor se articular em rede, seja devido aos limites das condições de trabalhos e tempo,  seja devido aos limites ligados à construção de competências profissionais para tal.

Por fim, o desafio: O que entendemos por  ensinar /aprender/pesquisar colaborativamente e em rede com crianças e jovens na cultura digital?



domingo, 28 de abril de 2013

O espaço do blog na formação





Na perspectiva da mídia-educação, que envolve a dimensão de “fazer/pensar” educação sobre/para, com e através dos meios, afirmamos as mídias e suas tecnologias para além de instrumentos, como cultura. Afinal, os instrumentos podem ou não serem utilizados na educação, e de qualquer forma estarão sempre sobre o “nosso controle” e "nossa intencionalidade".  Entender as mídias e tecnologias como cultura implica pensar que são mais que instrumentos, que fazem parte de nossa vida e que atravessam nossas escolhas e as formas com que construímos relações e produzimos conhecimentos.

Nessa perspectiva, podemos pensar os blogs como um canal próprio de interação, informação e discussão, e para além de uma alternativa de comunicação, podemos imaginar que seja também um importante meio para a formação. Continua crescente o uso e a criação de blogs que adentram projetos e escolas como mais uma ferramenta para registro, produção e divulgação de conhecimentos e informações as mais diversas. E parece que na mesma medida em que os blogs são criados na educação, também são abandonados, e isso ocorre por diversos motivos: seja porque o projeto acabou, a turma se desfez ou até mesmo porque não é fácil manter um blog atualizado!

Obviamente existem muitos tipos de blog, institucionais, profissionais ou pessoais, com temas e conteúdos que envolvem uma diversidade de estilos, desde diários, notícias, comentários, idéias, fotografias, até o que a imaginação do autor permitir. E a relativa facilidade e agilidade para publicar conteúdos que dispensam o conhecimento de linguagens de programação específica, como a HTML, ainda possibilita a troca através de comentários, que na maioria das vezes não são proporcionais à leitura feita. Muitos lêem, mas poucos comentam...

Da mesma forma que no mundo corporativo os executivos têm seus próprios blogs e no mundo do jornalismo os jornalistas, críticos e comentaristas possuem o seu canal próprio de informação e discussão, há algum tempo os educadores começaram a se sentir encorajados (e/ou contagiados) em adotar esse espaço como um potencial para a formação descentralizada e compartilhada. São os chamados blogs educativos, que além de opiniões e comentários configuram-se quase como um mini-portal, reunindo links e vídeos que também podem ser entendidos como fonte de pesquisa. Há também professores do ensino fundamental que utilizam o blog como forma de registro diário para comunicação com a família, e nesse caso, geralmente são fechados e direcionados, pois publicam fotos, desenhos e vídeos produzidos pelos alunos.

No entanto, ao pensar o blog em seu potencial formativo não podemos deixar de discutir sobre certos limites que eles trazem, para além do fato de “sentir refém” da continuidade e atualização. Ao permitir e publicar comentários críticos, temos a possibilidade de viver outros papéis no processo de autoria, comunicação e participação que fazem parte da formação. E isso implica também a necessidade de mediações.

Mas esse “lugar comum” descrito acima, se deve a uma provocação que me fez pensar no momento de avaliação de uma oficina sobre blog, parte do plano de ensino da disciplina Educação e Comunicação, ministrada no curso de Pedagogia: “Será que vale criar um blog com fim em si mesmo”?

A pergunta “para quê criar um blog”? não foi diretamente feita nem respondida no momento da oficina. Talvez estivesse subentendida pela leitura do texto Reflexão entre professores em blogs: passos para novas educações, de Adriane Lizbehd Halmann e Maria Helena Silveira Bonilla, e pela aceitação do grupo no momento de apresentação do plano de ensino.  

No entanto, apesar da aparente positividade da oficina aos olhares das estudantes, a pergunta continua como lição a posteriori: para quê aprender sobre e/ou criar um blog num curso de formação de professores?   



domingo, 24 de março de 2013

Defesas de verão



Quem trabalha com educação sabe que muito antes do início das aulas, diversos trabalhos fazem parte da vida acadêmica: a preparação das aulas, a continuidade das atividades de pesquisa, as reuniões intermináveis, as atividades da pós-graduação que parecem nunca tirar férias...

Nesse sentido, o ano letivo de 2013 começou antes de fevereiro com orientações, reuniões de consultoria sobre a pesquisa UCABASC, com avaliações e com a participação em 3 bancas de mestrado que merecem ser compartilhadas.

A pesquisa sobre Norma culta e ensino: uma dimensão lingüística possível, realizada por Maria Alice Baptista , no PPGL- UFSC, sob orientação do Prof. Dr. Fábio Lopes Silva . Ela discute as diferentes variedades de usos lingüísticos nos processos de ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa com alunos dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Sua dissertação traz uma análise sobre diversas atividades de produção textual realizadas no Laboratório Linguagem e Vida, do CA/UFSC, confirmando a importância da convivência com diferentes variedades lingüísticas nas atividades escolares. Na banca, a presença das professoras: Edair M.Görski e Cristine G. Severo

Comunicação e Educação: para uma abordagem política da identidade e diferença na escola, foi a pesquisa desenvolvida por Julia M. Leal,  no PPGCOM da UFSM, sob orientação da Profa. Dra. Rosane Rosa . Trata de uma pesquisa sobre os processos de construção de  identidade e diferença na escola, desenvolvida a partir da exibição de um curta-metragem Leonel Pé-de-Vento, no contexto do Projeto Cultural Vô Venâncio vai à escola, realizado nas escolas municipais da cidade. A partir dos pressupostos da Leitura Crítica da Comunicação, a pesquisa reafirma a importância de mediações críticas a respeito da temática da identidade e alteridade na práxis midiática e escolar. Na banca, a colega profa Vera Lucia Raddatz.

Do papel de avaliadora para orientadora, participei também da banca do trabalho Multissensorialidades e aprendizagens: usos das tecnologias móveis por crianças na escola, pesquisa desenvolvida por Lyana Thédiga Miranda,  sob minha orientação no PPGE/UFSC. Nessa pesquisa Lyana parte da  presença dos laptops em uma escola participante do PROUCA para investigar de que forma a multissensorialidade está presente nas aprendizagens e interações entre crianças e tecnologias móveis. Ela conclui que para haver aprendizagens significativas e dialógicas é necessário ir além de um modelo único para a inserção das tecnologias na escola. Na banca: P. C. Rivoltella, Elisa Q. Quartiero, Gilka Girardello e Giovani Pires

Três dissertações que tratam de pesquisas sobre temas que transitam pela educação, lingüística, comunicação e suas interfaces. Nas avaliações, a sutileza de olhares que atravessam os diferentes campos do conhecimento em diálogo com o trabalho.

Fazendo parte desse cenário, um sol de verão escaldante iluminava as universidades e as salas de aula quase vazias em que ocorreram as defesas. Os motivos desse “quase vazias” parecem ter sido diferentes. Para além de um calendário de reposição de aulas em fevereiro (decorrente da greve nas universidades federais em 2012), a tragédia ocorrida em Santa Maria justificava certa ausência pela dor da perda e por um luto que ainda terá seu tempo para ser elaborado na universidade e na cidade. Mas o que justificaria a pouca presença de colegas mestrandos, com exceção de amigos mais próximos, nas demais defesas?

O ritual de defesa de um trabalho acadêmico – seja ele TCC, Dissertação ou Tese – é um momento ímpar de aprendizagem e troca na vida universitária. Não apenas pela apresentação e socialização de uma pesquisa (suas perguntas iniciais, seus pressupostos e referenciais teóricos e metodológicos, suas respostas provisórias)  mas também pelos olhares e modos de argüição de cada professor da banca, seus diferentes pontos de vista sobre o mesmo trabalho, suas aproximações e seus distanciamentos. É um momento que pode ser considerado uma verdadeira aula, aula que ainda tem o privilégio de contar com a participação de outros professores conversando sobre o mesmo tema.  Parece que ainda há um longo caminho para que grande parte de mestrandos e doutorandos possam ver as defesas desse jeito...

Imagem: Corps à corps, G. Fromanger
http://www.cataloguemagazine.com/contemporary-art/magazine/selected-pieces/gerard-fromanger/ 

domingo, 17 de março de 2013

Mídia, imagem e movimento - um olhar sobre o 4 ENOME



O que temas como “Os corpos na mídia”, “Jogos digitais”, “Movimentos corporais e linguagens”, “Tecnologias em escolas do campo e em ilhas”, “Linguagem e comunicação” “Narradores e vagalumes” podem ter comum? Num primeiro momento esses temas podem ser ligados por fios que tecem reflexões sobre educação, cultura, imagem, comunicação e  movimento e em seguida podem ser ligados pelo pertencimento comum de seus autores: F. Zoboli, G. Cruz, R. Pereira, I. Munarim, F. Messa e F. Bittencourt ao Labomídia  ( coordenado por G. Pires, UFSC) e presentes no IV ENOME - Encontro Nacional do Observatório da Mídia Esportiva -realizado em São João del Rey (coordenado por  D. Mendes e M. Botti, UFSJ), em novembro de 2012. Evento que  participei apenas um dia, mas que não poderia deixar de socializar algumas questões que certos temas suscitaram no meu olhar e que ainda ecoam em mim.

Ao pensar as imagens dos corpos presentes na mídia em geral, Zoboli destaca o corpo como fetiche. Acompanhado de belas imagens da mitologia que transitam por deuses, as figuras possibilitam  ver fragmentos que nos chegam peãs imagens da mídia mostrando o corpo belo, o que vejo e como sou visto, o que tenho e modifico,  o que transforma,  morre e renasce. Imagens como rastros de corpos que a mídia elege e que acolhemos ou não.

Das imagens às experiências com jogos digitais, as possibilidades de imersão na cultura e o conceito de gamificação, através do qual Cruz destaca a importância das aprendizagens informais  que extrapolam os espaços e o conceito de gaming e que podem se construir como experiências culturais. Pistas para pensar num diálogo possível entre jogo e “letramentos digitais”.

Entre diálogos e fronteiras, Pereira e Munarim narram suas experiências no doutorado sanduíche com imagens  reveladoras das diferentes formas de participação na universidade, na escola, nas viagens de estudo, nas ilhas italianas e noutros territórios que se articulam ao pensar o movimento corporal, as tecnologias na escola e a educação física. Imagens que também comunicam  relatos de uma pesquisa em parceria desenvolvida por Messa, num belo passeio fotográfico pela Argentina.

E para finalizar essas experiências narrativas, Bittencourt traz a imaginação mais que a imagem para falar daqui e de lá, como identidades e contrastes entre Brasil e Espanha. Entre lugares e espantos, a vontade de ver vagalumes que acendem estrelas, e que o acompanham há muitos anos. Vagalumes que correm o risco de se apagarem diante dos holofotes da mídia na sociedade do espetáculo.

Diante de tantas imagens poéticas, a responsabilidade de fechar o evento com algumas considerações sobre a Mídia-educação e os desafios da escola. Para tal, três perguntas: Que crianças e jovens estamos formando no contexto contemporâneo ? A produção de subjetividades na escola permite a construção de identidades como reconhecimentos e pertencimentos? Que tipos de aprendizagens e participação na escola/cultura estamos propiciando? Um pressuposto: protagonismo e atravessamento da mídia no cotidiano e a necessidade de uma concepção ecológica de mídia-educação para entender as novas formas de aprendizagem e os novos modos de participação na escola e na cultura. E uma constatação: a crise na educação e nas instituições (instituições tradicionais não estão mais respondendo às questões identitárias de construção de sentido diante da complexidade do mundo contemporâneo). Com isso, algumas considerações sobre: contextos da mídia-educação  e cultura digital; entendimentos sobre formas de participação, produção  e aprendizagem; formas de mediação; e desafios da mídia-educação na escola e na pesquisa.

Questões e discussões para um debate que pretendia encerrar um evento, mas que ao mesmo tempo anunciava outras possibilidades de continuidade. O evento acadêmico poderia terminar aqui, mas como experiência de vínculos, de afetos e da cultura mineira continua presente nas imagens das gerais: suas cores, seus sabores, seus sotaques presentes num trem de histórias que esperam novos eventos para serem recontadas... Nesses recontos, a busca da inspiração para o ano que começa e continua!