domingo, 17 de março de 2013

Mídia, imagem e movimento - um olhar sobre o 4 ENOME



O que temas como “Os corpos na mídia”, “Jogos digitais”, “Movimentos corporais e linguagens”, “Tecnologias em escolas do campo e em ilhas”, “Linguagem e comunicação” “Narradores e vagalumes” podem ter comum? Num primeiro momento esses temas podem ser ligados por fios que tecem reflexões sobre educação, cultura, imagem, comunicação e  movimento e em seguida podem ser ligados pelo pertencimento comum de seus autores: F. Zoboli, G. Cruz, R. Pereira, I. Munarim, F. Messa e F. Bittencourt ao Labomídia  ( coordenado por G. Pires, UFSC) e presentes no IV ENOME - Encontro Nacional do Observatório da Mídia Esportiva -realizado em São João del Rey (coordenado por  D. Mendes e M. Botti, UFSJ), em novembro de 2012. Evento que  participei apenas um dia, mas que não poderia deixar de socializar algumas questões que certos temas suscitaram no meu olhar e que ainda ecoam em mim.

Ao pensar as imagens dos corpos presentes na mídia em geral, Zoboli destaca o corpo como fetiche. Acompanhado de belas imagens da mitologia que transitam por deuses, as figuras possibilitam  ver fragmentos que nos chegam peãs imagens da mídia mostrando o corpo belo, o que vejo e como sou visto, o que tenho e modifico,  o que transforma,  morre e renasce. Imagens como rastros de corpos que a mídia elege e que acolhemos ou não.

Das imagens às experiências com jogos digitais, as possibilidades de imersão na cultura e o conceito de gamificação, através do qual Cruz destaca a importância das aprendizagens informais  que extrapolam os espaços e o conceito de gaming e que podem se construir como experiências culturais. Pistas para pensar num diálogo possível entre jogo e “letramentos digitais”.

Entre diálogos e fronteiras, Pereira e Munarim narram suas experiências no doutorado sanduíche com imagens  reveladoras das diferentes formas de participação na universidade, na escola, nas viagens de estudo, nas ilhas italianas e noutros territórios que se articulam ao pensar o movimento corporal, as tecnologias na escola e a educação física. Imagens que também comunicam  relatos de uma pesquisa em parceria desenvolvida por Messa, num belo passeio fotográfico pela Argentina.

E para finalizar essas experiências narrativas, Bittencourt traz a imaginação mais que a imagem para falar daqui e de lá, como identidades e contrastes entre Brasil e Espanha. Entre lugares e espantos, a vontade de ver vagalumes que acendem estrelas, e que o acompanham há muitos anos. Vagalumes que correm o risco de se apagarem diante dos holofotes da mídia na sociedade do espetáculo.

Diante de tantas imagens poéticas, a responsabilidade de fechar o evento com algumas considerações sobre a Mídia-educação e os desafios da escola. Para tal, três perguntas: Que crianças e jovens estamos formando no contexto contemporâneo ? A produção de subjetividades na escola permite a construção de identidades como reconhecimentos e pertencimentos? Que tipos de aprendizagens e participação na escola/cultura estamos propiciando? Um pressuposto: protagonismo e atravessamento da mídia no cotidiano e a necessidade de uma concepção ecológica de mídia-educação para entender as novas formas de aprendizagem e os novos modos de participação na escola e na cultura. E uma constatação: a crise na educação e nas instituições (instituições tradicionais não estão mais respondendo às questões identitárias de construção de sentido diante da complexidade do mundo contemporâneo). Com isso, algumas considerações sobre: contextos da mídia-educação  e cultura digital; entendimentos sobre formas de participação, produção  e aprendizagem; formas de mediação; e desafios da mídia-educação na escola e na pesquisa.

Questões e discussões para um debate que pretendia encerrar um evento, mas que ao mesmo tempo anunciava outras possibilidades de continuidade. O evento acadêmico poderia terminar aqui, mas como experiência de vínculos, de afetos e da cultura mineira continua presente nas imagens das gerais: suas cores, seus sabores, seus sotaques presentes num trem de histórias que esperam novos eventos para serem recontadas... Nesses recontos, a busca da inspiração para o ano que começa e continua!



domingo, 25 de novembro de 2012

Rádio e Educação




Pode parecer anacrônico em tempos de redes sociais digitais falar em rádio e educação. Mas não é.  O II Seminário Latino-Americano de Rádio e Educação – saberes em sintonia,  que aconteceu entre os dias 5 a 8 de novembro em Fortaleza,  promovido pela  Universidade Federal do Ceará em parceria com a ONG Catavento Comunicação e Educação, mostrou que a convergência de tecnologias e linguagens pode ser algo que ultrapassa e aproxima fronteiras.

Reafirmar o princípio da comunicação como direito humano foi o foco de diversas mesas que reuniram  experiências dos diversos contextos e países da América Latina.  A programação do evento propiciou um Panorama do Rádio Educativo, Rádio-Escola e Interação Comunitária, Desafios Atuais da Comunicação e Políticas Públicas, Rádio Educativo, Rádio Web e Educação, Comunicação e Interação Juvenil,  Cultura Escolar e Participação, mesa da qual tive a honra de fazer parte compartilhando algumas experiências desenvolvidas com rádio em projetos escolares.

Além de mesas, palestras, grupos de trabalho e oficinas que fizeram parte do evento, a diversidade de idéias e talentos do I Festival Latino-americano de Rádio Educativo foi a possibilidade de conhecer formas alternativas de produção radiofônicas e intervenção sonora dos mais diferentes lugares com pessoas de todas as idades. Parte de tais experiencias pode ser vista no blog do evento.

Um encontro cruzando olhares, vozes e experiências provindos das universidades, ONGs, escolas, coletivos, rádios comunitários  e muitos outros representando países como Argentina, Colombia, Uruguai, Bolívia, Venezuela, Peru, Equador, e obviamente, o Brasil. Nomes como Gabriel Kaplun, Carlos Rodrigues Brandão, Deisimer Gorczevski, Alma Montoya se alternavam com desconhecidos contando suas histórias provindas desde as vozes da selva amazônica até o pampas.

Se o afeto e a diversidade foram algumas marcas que fizeram parte dos saberes em sintonia, um legítimo Forró Pé de Serra selou o encontro numa mistura de ondas, ritmos e danças híbridas com balanços nordestinos e caribenhos.  

A gentileza presente em todos os momentos do evento, o carinho na acolhida e permanência dos convidados foi um “detalhe” que não deixou de ser reconhecido por todos.  E por isso, deixo registrado esse carinho com imensa gratidão a toda equipe organizadora, particularmente a Edgard, Thiago, Luana e Lac  compartilhando pequena amostra de tudo que recebemos de lembrança para levar. 


Entre saberes e sabores, as poesias do lugar, as texturas do algodão bordado, os desenhos em areia colorida, os doces (cocadas, rapaduras) o caju, e a cachaça da terra para completar a sintonia. Afinal , ninguém de ferro, não é mesmo? 


terça-feira, 30 de outubro de 2012

Cultura digital e suas marcas em práticas e eventos



Entre os meses de setembro e outubro de 2012 participei de três eventos no campo da educação e comunicação com a temática da cultura digital exercendo funções de curadoria, organização, palestrante e comentarista. Compartilho algumas impressões.

No Educasul, realizado no CentroSul de Florianópolis, no dia 3/9/2012, o prof. James Paul Gee (Arizona State University), durante a conferência sobre Educação na Era Digital, ao chamar a atenção para a pergunta: Por que as crianças aprendem melhor fora da escola? recorre a Paulo Freire para argumentar que ensinamos de maneira errada ou ruim. Imagens, ações, experiências estão colocados no mundo antes da palavra e assim, as crianças começam a aprender com o mundo e ler primeiro o mundo. Ao oferecer esse mundo às crianças, Gee ficou interessado em pesquisar os videogames porque segundo ele, são ferramentas que colocam as crianças no mundo. Para ele, o videogame pode atuar como um portal em que as crianças interagem com imagens, constroem suas vivências e experiências, enfrentam a solução de problemas e assim elas vão aprendendo num percurso que vai das experiências do mundo às palavras. Sendo projetado para mudar conforme os jogadores vêem o mundo, os videogames propiciam novas possibilidades de ver e resolver os problemas, e não seria isso que as escolas deveriam fazer? Pergunta ele.

Nessa mesma linha de raciocínio, a professora Elisabeth Hayes (Arizona State University) destaca o videogame como apoio à aprendizagem nesse percurso da leitura para escrita no mundo digital, visto que hoje é necessário saber ler, interpretar e atuar no mundo digital também. Afinal, pergunta ela: o que as crianças estão fazendo com as tecnologias digitais? De que forma estão usando? Estão entendendo essa ferramenta para além do que foi programado, como o videogame? Estão usando também para certas formas de ativismo e  militância social? Elas têm essas competências? De que forma as crianças estão sendo empoderadas para tal? E responde dizendo que a tecnologia digital pode estar reforçando  as desigualdades, e aqui também traz o olhar de Paulo Freire para pensarmos que independente da renda e condição social, as crianças aprendem mais sobre as tecnologias digitais fora da escola.

No IV Seminário de Pesquisa em Mídia-Educação e I Seminário UCABASC, realizado no Centro de Eventos da UFSC nos dias 10 e 11/09/2012,  a Profa Maria Florencia Ripani, do Ministério de Educação da Cidade de Buenos Aires também destacou os paradigmas da cultura digital e as mudanças  nos processos culturais  mencionando  o dialogismo de Paulo Freire a partir da necessidade de diálogo e mediação entre homem-mundo-tecnologias. Recuperando a importância da multimodalidade na produção de sentidos, Florencia destacou a experiência do Plan Sarmiento como um Plano Integral de Educação Digital. Aliás, mais do que integrar as escolas portenhas à cultura digital, o objetivo é inovar as escolas, e para tal o Plano desenvolveu uma implementação pedagógica junto com a implementação tecnológica. As estratégias de inovação parecem ter começado com formação e acompanhamento de professores, e envolve grupos de formadores e multiplicadores, conselhos consultivos, redes de supervisores, oficinas, intercâmbio de experiências e produções colaborativas, festival digital, participação das famílias e muitos outras ações de forma a integrar o trabalho, produzir e compartilhar conteúdos e experiências.  Com isso, aos poucos parecem estar mudando a aprendizagem e a escola.

Após discutir algumas questões sobre o Plan Sarmiento com o PROUCA,  Nelson Pretto,  Maria Helena Bonilla,  Elisa Quartiero e eu  apresentamos aspectos de uma pesquisa em desenvolvimento sobre Gestão e Práticas Pedagógicas no âmbito do PROUCA em BA e SC. Considerando que as políticas públicas de inserção das tecnologias da escola na perspectiva de uma inclusão digital, social econômica e cultural envolvem uma complexidade que também diz respeito à discussão sobre o marco civil da internet, os direitos autorais, o software livre, etc. , só iremos enfrentar  tais questões “se criarmos redes de relações”, diz Pretto. Ao mesmo tempo, o desafio de pensar além do cotidiano da sala de aula só vai repercutir em formação cidadã se tal processo estiver ancorado em uma apropriação significativa dos conhecimentos na perspectiva de um pertencimento instrumental, social e cultural. Para isso, pensar a especificidade dos processos de aprendizagem no contexto da cultura digital só tem sentido se implicar em práticas pedagógicas e sociais transformadoras. E apesar de encontrarmos certos indícios de algumas experiências autorais, colaborativas e cidadãs, parece que ainda estamos longe de construir outras perspectivas e ultrapassar certas fronteiras da inclusão digital por diversos motivos...

E por falar em fronteiras, o prof. Marcelo Buzzato  traz essa discussão do ponto de vista da linguagem, tecnologia e sociedade para pensar o letramento e as redes digitais e sociais. Ao destacar a cultura digital e a escola, enfatiza valores, tecnologias e métodos que transitam no conceito de inovação destacando o remix autoral, a mistura popular/massa, digital/não digital, homem/máquina e outros que Gilka Girardello  costura com autoria narrativa infantil e imaginário midiático. Para ela, na dimensão dialógica do discurso narrativo a autoria se parece com o jogo do contar, e traz o exemplo da fanfiction.

Diante de tantas questões que instigaram o nosso pensar, ao discutir os direitos autorais e sua relação com a educação e a cultura digital, o prof. Marcos Wachowickz  enfatiza que nossa legislação atual é das mais restritivas do planeta e que os direitos autorais protegem mais o intermediário que o autor. E como fica essa questão no contexto das novas mídias, novos cursos e novas práticas de pesquisa e autorias na universidade? pergunta ele. E responde dizendo que estamos diante do desafio de buscar novas formas de pensar as formas produzidas não proprietárias, de construir e produzir conhecimentos que realmente sejam retribuídos à sociedade, diz ele. A dificuldade é mudar a cultura da universidade, e toda mudança de paradigma parece ter sido sempre complicada.

Da ilha de SC para Porto de Galinhas, a 35ª Reunião Anual da ANPED foi a consolidação dessas e outras inquietações. O que nós estamos fazendo com as redes e o que as redes estão fazendo com nós? pergunta a profa. Lucia Santaella no início de sua fala sobre Construções intersubjetivas nas redes digitais, encomendada pelo GT Educação e Comunicação. Entre passagens sobre a idéia da aprendizagem ubíqua, do poder emergente das redes, da subjetividade humana e sua polifonia na subjetividade coletiva, das identidades múltiplas, da cultura participativa e do potencial para a educação, chamou a atenção o destaque para o valor do erro com respaldo em Oswald de Andrade, para quem errar significa a possibilidade de corrigir depois. O interesse é no ser humano, no que está acontecendo com ele e nos processos de ensino-aprendizagem pós-revolução digital, diz Santaella, destacando a necessidade de reinventar cotidianamente, pois vivemos um tempo em que não há mais tempo para nostalgia.

E sem nostalgia, mas com saudades dos tantos encontros que tais eventos propiciam, a singela beleza de ver o reconhecimento a tantos mestres que fizeram e fazem a história da educação em nosso país serem premiados com o Troféu Paulo Freire  Certeza de que esses eventos são momentos que não apenas nos ensinam, mas deixam marcas ...  



quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Sobre representações de infâncias no cinema



Em junho de 2012 tive o prazer de participar da banca examinadora da tese  Representações da infância no cinema: ficção e realidade, de Francisca Rodrigues Lopes, defendida no Curso de Doutorado em Comunicação e Semiótica, PUC/SP, sob orientação da Profa. Dra. Leda Tenório  da Motta. E ao encaminhar algumas discussões no Núcleo de Aperfeiçoamento e Diversificação de Estudos, NADE, sobre Cinema, Infância e Educação, em uma turma da Pedagogia da UFSC, lembrei desse trabalho e sua temática.  

Cruzando as fronteiras entre infância e cinema,  Francisca tece suas reflexões teóricas sobre representações da infância no cinema  de uma forma inteligente e original, em que a abordagem dos estudos da infância a partir da filosofia de  Comenius, Montaigne, Rosseau coloca-se ao lado dos estudos do cinema (Metz, Aumont) da semiótica (Pierce, Greimas), transitando pela psicanálise e por outros cenários da cultura.

O corpus analisado envolve os 5 filmes considerados renomados (diretor e crítica) e clássicos com narrativa do tipo realístico (drama e melodrama) que foram selecionados para análise e descrição: Cinema Paradiso, (Giuseppe Tornatore, Itália , 1988), As cinzas de Angela (Alan Parker, EUA, 1999), O brinquedo proibido(René Clement, França, 1952), A vida é bela(Roberto Benigni, 1997) e  O balão branco (Jafar Panahi, Irã, 1995). O diálogo entre cinema, infância e representações vai se construindo com densidade sem perder a leveza, revelando as sensibilidades que o cinema pode criar..

A infância escolhida na maioria dos filmes não é a da fantasia e tal como instiga o Prof. José Paulo Fiks, poderíamos nos perguntar o que esses filmes representam no campo da pedagogia.

Aliás, será que os filmes hoje representam a criança?  Muitos trazem uma infância que não é mais infantil, e se por outro lado, o cinema de certo modo se infantilizou, a noção de agência da criança foi se modificando. E talvez o cinema tenha uma nova representação de infância ou uma nova fantasia... Mas se a infância está mudando, até que ponto o cinema consegue representar as tantas condições de infâncias que vivem as crianças hoje?

Entre distração, contemplação e reflexão, Benjamin diz que o valor do culto e exposição da obra de arte na era da reprodutibilidade técnica se desloca, mas não desaparece. Assim, a relação do cinema com a realidade pode ser considerada a mesma que a do cinema com a criança, e apesar de o cinema também incluir uma visão idealizada, o modo como representamos o mundo também é a realidade.

O cinema e a infância criam demandas, vontade de ver, curiosidade que nasce e satisfaz. O cinema satisfaz, mas satisfaz por que, pergunta o Prof. Oscar Cesarotto, que responde pelo viés da  psicanálise: porque aponta para o coletivo, sonhos e fantasias, produções do inconsciente e histórias. A narrativa do cinema cria histórias como uma maquinaria de sentido. Ou seja, o cinema satisfaz porque as histórias que ele conta se referem a algo em torno do aqui e agora. Um signo que desperta algo.

E entre tantos despertares, qual seria o limite do representável? Há algo que deve ser preservado das crianças? O que se pode ou não mostrar dessas representações de infância e criança no cinema? 

Imagem: cena do filme O brinquedo proibido (René Clement, França, 1952)

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Poesia em imagens: uma possibilidade de produção audiovisual



No S. E. Educação, Mídia e Cultura, ministrado no PPGE/UFSC em 2012.1, temos discutido diversos aspectos da mídia-educação no contexto da cultura digital. Com uma proposta metodológica que busca articular o estudo e a reflexão teórica com experiências práticas problematizando certas dimensões do fazer, ao abordar o tema “Linguagem dos meios, produção cultural e artefatos audiovisuais”, no dia 25/4/2012, foi proposta uma inversão do caminho: em vez começar com a discussão do texto, iniciamos a aula com a leitura de uma poesia:

POR UM ACASO - Wislawa Szymborska
Poderia ter acontecido.
Teve que acontecer.
Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu, mas não com você.
Você foi salvo pois foi o primeiro.
Você foi salvo pois foi o último.
Porque estava sozinho. Com outros. Na direita. Na esquerda.
Porque chovia. Por causa da sombra.
Por causa do sol.
Você teve sorte, havia uma floresta.
Você teve sorte, não havia árvores.
Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio,
um batente, uma curva, um milímetro, um instante.
Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha.
Em conseqüência, porque, no entanto, porém.
O que teria acontecido se uma mão, um pé,
a um passo, por um fio
de uma coincidência.
Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso?
Um só buraco na rede e você escapou?
Fiquei mudo de surpresa.
Escuta,
como seu coração dispara em mim.

Após a leitura, o trabalho foi organizado em grupo, que tinha a “tarefa” de criar um produto ou uma produção audiovisual para então, após apresentação e socialização, refletirmos sobre alguns aspectos da linguagem.  Ou seja, o grupo deveria negociar as possíveis e diferentes interpretações da poesia, tentar visualizar as emoções que a poesia suscitou, pensar um roteiro básico, captar imagens, editá-las com inclusão de áudio e apresentar a produção final para o grande grupo.
Dessa forma, a idéia era criar e/ou produzir uma produção audiovisual para então refletir a experiência de criar linguagens.  Nessa proposta, a metodologia  do trabalho, estava situada na própria experiência de produção/apreciação/reflexão e foi lindamente compreendida e traduzida, conforme é possível observar em alguns trabalhos abaixo:

Amanda, Rafael e Daniel


 Rodrigo e Fabíola

Elias, Maria Luisa e Karin



Thais e Stela


O trabalho de Suleica, Lyana e Laura não pode ser compartilhado neste momento visto que envolveu a participação de outras pessoas e que não foi possível obter a autorização para sua publicação.

Após o momento de apreciação, apresentação e socialização da experiência, a avaliação destacou a evidência das diferentes formas de interpretação do mesmo texto e o sentido da experiência de fazer e compartilha, como alguns depoimentos demonstram: “Um exercício mental de criação”; “Entrega para algo que não tem capacidade de expressar aquilo que sente”, “O silêncio em si traz um campo de informações”, “A dificuldade de decidir e negociar os interesses no grupo”, “Foi possível observar a metodologia de cada grupo e seus produtos variados”, “Foi difícil mudar a ordem do olhar e fazer reverberar diferentes vozes”, “Gostei de todos os trabalhos. Foi fantástico”, “Trabalho com produção de sentidos, com a própria voz, com a voz do outro”...

Diante dessa pequena amostra, um agradecimento à participação especial de Magda Pischetola, presença fundamental na referida proposta.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Juventude, tecnologia e inovação




No contexto do Fórum Mundial de Educação, movimento que discute a cidadania e o direito universal à educação, diversos profissionais da área de diferentes países estiveram reunidos para participar do II Fórum Mundial deEducação Profissional e Tecnológica, evento que aconteceu entre dias 28/5 a 1/6/2012, em Florianópolis.

Na diversidade da programação  com inscrições gratuitas, o debate  Juventude, tecnologias e inovação contou com a participação de Juana M. Sancho Gil (Espanha),   Professora de Tecnologia Educacional no Departamento de Didática e Organização Educativa da Universidade de Barcelona, Alberto Croce (Argentina), Educador popular e professor, fundador e presidente da Fundação SES – Sustentabilidade, Educação, Solidariedade (Argentina),  Fernando Antonio Albuquerque Costa (Portugal), professor do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa,  atua na área de currículo, didática e formação de professores com ênfase no uso das TIC, e a minha mediação.

A mesa Juventude, Tecnologia e Inovação começou com a minha participação para contextualizar o tema em questão no cenário mundial. Pontuei aspectos dos cenários da cultura digital, os jovens e os usos das mídias e tecnologias em contextos formais e informais, as diversas formas de participação, sociabilidade e as novas formas aprendizagens que a neurociência discute. Para situar os desafios da educação na perspectiva da cidadania, pontuei algumas questões das multiliteracies e da formação com algumas questões aos debatedores.

“Analógico dentro, digital fora?”. Com essa pergunta Juana Sancho esclareceu o uso da metáfora para enfatizar que nenhum aluno ou professor é analógico ou digital e nem todos os espaços são analógicos ou digitais, e que devemos cuidar com certas etiquetas que usamos. Ao abordar as distancias entre aluno e escola, destacou a importância de perguntar com que noção de conhecimento trabalhamos e que noção de aprendizagem temos. Nesse sentido, muitas universidades estão trabalhando com teorias desatualizadas sobre o que é aprender, e que precisamos pensar nos novos alfabetismos que acontecem dentro e fora da escola. Destacou também a necessidade de entendermos que as tecnologias não são só instrumentos, são também simbólicas, organizativas e tecnologias de poder.

Em “Como aprender usando as novas tecnologias”, Alberto Croce começou fazendo uma saudação a todos os povos presentes no fórum, e fez uma saudação a “pacha mama”, mãe terra, representada por um belo arranjo de flores que enfeitava o lugar, jogando água sobre elas com minha ajuda para simbolizar a vida e presença do masculino e feminino. Com sua filosofia do bem viver, destacou o valor fundamental da educação para formar “pessoas boas” e como as TIC, entendidas em sua transversalidade, podem contribuir nos processos ensino-aprendizagem e para motivar e empoderar os jovens. Destacou os usos que os jovens fazem do Google, Wikipédia, Youtube, Facebook e jogos on line e a necessidade de pensar a educação popular nesse contexto da tecnologia.

Por sua vez, ao tratar das "Questões sobre ensino-aprendizagem com TIC no século XXI", Fernando A. Costa iniciou sua fala sobre os usos da tecnologia citando S. Papert sobre e a pressão que tanto os jovens como as indústrias de tecnologias digitais estão fazendo na escola, e que equipá-las é a parte mais fácil, mas que as TIC não vão resolver os problemas da educação. Diante da incapacidade da escola nesse cenário, a palavra chave deve ser inquietação, e as perguntas giram em torno das competências que alunos, professores e escola devem ter. A esse respeito, enfatizou que os modelos de formação têm sido inadequados, que a inserção das TIC no currículo deveria ser na perspectiva transversal e que necessitamos novas formas de avaliar os usos das tecnologias digitais, pensando-as como estratégia de desenvolvimento social.

Evidentemente que essa síntese deixou de fora muitos outros aspectos, mas vale destacar o grande número de questões suscitadas no debate por participantes dos mais diversos lugares (Maranhão, Goias, MG, RJ, SC,): a relação absolutamente inseparável da didática e as TIC, a questão do plágio e a pergunta sobre até que ponto estamos preparando os alunos para irem além das cópias, a importância de conhecer e não confundir as redes sociais com os serviços das redes sociais, a discussão dos critérios de uso, a impossibilidade de o professor não se dispor a usar ou a necessidade de aprender a usar as tecnologias, e o medo de usar as TIC como indicador de um fracasso que não considera a condição de continuar a aprender sempre, e os riscos de associar os usos da tecnologia com resultados. Sem dúvida, essa discussão foi e vai longe...



quarta-feira, 30 de maio de 2012

Comunicação e educação em foco



No dia 25/5 participei do 5º Congresso Nacional das Escolas Franciscanas, em Santa Maria, com a temática Educação Franciscana na Comunicação Digital. O evento reuniu cerca de 500 participantes entre professores e alunos de diferentes escolas franciscanas, como por exemplo, Brasilia, Dourados, Guaíra e  muitas outras cidades do Rio Grande do Sul. Na abertura dos trabalhos daquela manhã, a música foi a acolhida criando um clima de leveza para a continuidade dos trabalhos.

Na conferência Crianças, jovens e cultura digital: os desafios da mídia-educação a hipótese de trabalho dizia respeito aos cenários da cultura digital,  quem são essas crianças e jovens hoje (o que fazem, sentem e dizem nestes cenário sem que atuam), os usos das mídias e tecnologias em contextos formais e não formais, os novos modos de aprendizagem e as possibilidades pedagógicas da  web 2.0, e os desafios da Mídia-educação diante dessa formação de crianças, jovens  e professores.

Paulo Freire dizia que “Educação é comunicação, é diálogo, na medida em que não é transferência de saber, mas um encontro de sujeitos interlocutores que buscam a significação dos significados”.  E na medida em que a mídia vem protagonizando a relação  entre as pessoas, na sociedade multitela  a necessidade da mediação da educação é evidente, e se torna uma das tarefas da mídia-educação.

Se estamos vivendo uma transição entre modelos da comunicação em massa à comunicação em rede, o atravessamento da mídia no nosso cotidiano modifica as relações entre o que é considerado público-privado, e os espaços de aprendizagens formal- informal redimensionam as relações escolares, onde a mídia geralmente aparece como ferramenta ou recurso didático. Mas se entendermos que a mídia, mais do que ferramenta é cultura podemos construir  outras possibilidades de mediação para pensar a mídia e fazer mídia na escola e estar mais sintonizados com as práticas culturais de crianças e jovens.

Nesse sentido, discutir as diversas formas de participação nos espaços da cultura, as novas formas de aprendizagem e sociabilidade que as tecnologias digitais propiciam, e as múltiplas linguagens necessárias para a inserção na cultura digital significa problematizar os valores, os conhecimentos e as competências que a escola trabalha em suas diferentes formas e conteúdos.

Considerando as várias formas que a mídia está presente na escola, seja pela inserção curricular, seja tema transversal ou por projetos especiais percebemos que não basta trabalhar com as mídias e tecnologias na escola para fazer mídia-educação. Em pesquisa sobre o uso dos meios nas escolas verificamos que a presença das mídias na prática pedagógica ocorre com diversas ênfases:  Cinema e filmes (apoio pedagógico, produção de audiovisuais), TV (comentários críticos), Fotografia (registro, ilustração), Jornal e mídia impressa (informação, pesquisa, produção de jornal, revista, HQ), Computador, laptop e tablets (produção de conteúdos e apresentação de trabalhos), Internet (pesquisa, interação, produção de blog, rádio web), Celular (permissão/proibição, funções diversas: fotografar, editar, enviar e receber mensagens, jogar), Jogos eletrônicos (lúdico e educação), Redes sociais (identidades sociais, possibilidades de troca e comunidades de aprendizagem).

No entanto, o desafio da mídia-educação é ir além dos usos instrumentais e didáticos, e propiciar possibilidades de reflexão e produção como forma de expressão e metareflexão. E diante da cultura digital e dos novos meios, há quem defenda  uma redefinição conceitual da mídia-educação no sentido de uma New Media Education, que pode ser  tanto uma “educação aos novos meios”  como  uma “nova educação aos meios”.

Na discussão, os depoimentos dos professores revelaram algumas preocupações que interpelam a todos que trabalham com educação e que ainda não temos respostas, apenas aproximações. Aproximações que sinalizam o quanto ainda temos a construir e o quanto a pesquisa pode nos ajudar nesse sentido.  

E para continuar essa discussão na perspectiva da pesquisa, aproveitando minha ida à Santa Maria, fui convidada para participar do I EDUCOM, na UFSM,   coordenado pela Profa. Dra Rosane Rosa, do Núcleo de Estudo e Pesquisa em Mídia, Políticas Públicas e Cidadania (UFSM).

Na programação do evento  participei da Mesa Temática Comunicação e Educação: um olhar sobre práticas e pesquisas na Região Sul, com a presença da Profa. Dra. Jane Mazzarino (UNIVATES) e Profa. Dra. Lilane D. Brignol (UFSM) que fez a mediação do debate ( o Prof. Dr. Toni Andre S. Vieira, do Núcleo de Comunicação e Educação Popular da UFPR justificou sua ausência).

Na minha contribuição ao debate enfatizei algumas tendências e perspectivas da pesquisa em mídia-educação, situei o estado da arte das pesquisas em educação e comunicação em SC, sobretudo nas linhas de pesquisa em educação e comunicação dos programas de pós-graduação da UFSC e UDESC, e as experiências e práticas de pesquisa desenvolvidas e em desenvolvimento no Núcleo Infância, Comunicação,Cultura e Arte, NICA, UFCS/CNPq. 

Por sua vez, a Profa. Jane Mazzarino  trouxe uma “Mirada para compartilhar a perspectiva da educomunicação socioambiental” abordando questões de uma pesquisa sobre práticas ambientais  do ponto de vista do jornalismo e da escola e articulando aspectos do capital social e do capital comunicacional.

No debate, a importância do “professor se sentir contemplado na discussão e nas pesquisas e não apenas criticado”, conforme depoimento dado, evidencia que as parcerias entre universidade e escolas são fundamentais para construirmos outras possibilidades de pesquisa e formação.

Parcerias que são ampliadas quando temos a possibilidade de compartilhar nossas experiências com formação e pesquisa. Por isso, um agradecimento especial à Irmã Fátima e à Irmã Valderesa (presidente da Scalifra) e à Profa Rosane (UFSM), pelo convite, pela delicadeza na acolhida e pelos diálogos e parcerias em devir. 

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Pesquisa e formação



Nesses primeiros dois meses de ano letivo pude acompanhar  a apresentação de 5 pesquisas desenvolvidas no campo da educação e comunicação em diversos programas de pós-graduação que gostaria de compartilhar.

Começando com Khilá: (des)encontros da voz na travessia Brasil-Moçambique, Roselete F. de Aviz de Souza  analisa a voz como devir buscando compreendê-la  como “presença, silêncio, escuta, testemunho, transmissão e memória” a partir de Deleuze e Guattari, Barthes, Derrida, Zunthor, Ngwenya, Noronha e muitos outros. Trabalho profundo e sensível, o texto poético com estética singular reflete sobre a viagem educação e formação, foi lindamente orientado por Gilka Girardello no PPGE/UFSC. Sua defesa foi um acontecimento para o NICA UFSC/CNPq, grupo de pesquisa em que Roselete participa.

Da voz para televisão foi a viagem necessária para acompanhar o trabalho de Ana Gabriela Simões Borges, Televisão e educação: um estudo sobre o projeto Televisando o futuro na escola, orientado por Rosa Maria C. Dalla Costa, no PPGE/UFPR .  Ao verificar de que forma a televisão está presente no cotidiano escolar e suas possibilidades de trabalho em sala de aula a partir do projeto Televisando o Futuro, Ana Gabriela fundamenta sua pesquisa com Martín-Barbero, Soares, Citelli, Dalla Costa e outros enfatizando a perspectiva da educomunicação.

De Curitiba para Maringá, o encontro com Educação escolar e desenho animado japonês: um estudo o anime Naruto, desenvolvido por Priscilla Kalinke da Silva e orientado por Fátima Neves, no PPGE/UEM, destaca um processo de mediação pedagógica a partir da recepção do animê Naruto com adolescentes de uma escola pública. Com referências mídia-educação e dos estudos da cultura escolar, o destaque para entender como o animê participa da construção da cultura escolar também evidencia a relação entre educação e comunicação na escola.

De Naruto para O menino Maluquinho, o trabalho Meninos e Meninas: uma análise do Menino Maluquinho, o  filme, sob o olhar do gênero, de Rosânia Maria S. Bittencourt, orientado por Giani Rabelo, PPGE/UNESC, tenta compreender o olhar das crianças sobre as relações de gênero e sexualidade a partir do referido filme. A pesquisa foi cuidadosamente desenvolvida com crianças e amparada em estudos de Foucault,  Sarmento, Kohan, Fischer, Fantin e outros confirmando que na contemporaneidade certas  “verdades deixam de ser permanentes para se tornarem temporárias”.

De Criciúma para Salvador, a discussão sobre criança e cultura continua com a pesquisa Escola, criança e o mundo encantado das marcas: desafio docente em (com)texto de sedução publicitária, desenvolvida por Elizabeth Carvalho Dantas e orientada por Augusto Cesar R. Leiro, no PPGE/UNEB. Ao pensar o  imaginário infantil povoado por símbolos e marcas da propaganda em uma cultura do consumo, o trabalho problematiza o discurso publicitário dirigido à criança e discute a escola como espaço comunicante  no  contexto da “comunicação mercadológica na contemporaneidade” a partir de referências dos estudos da publicidade, da cultura e da mídia-educação .

Evidentemente, a temática de cada tese e/ou dissertação promoveria uma infindável discussão e remeteria a muitos outros aspectos que fizeram parte dos desdobramentos de cada trabalho. Questões e tensões que revelam como a construção do olhar do pesquisador pode seguir diferentes (des)caminhos e estilos que trazem importantes contribuições para pensar a pesquisa e a formação.

Por fim, entre tantas marcas que tais percursos deixam e parcerias que consolidam, a certeza de ver como é lindo aprender não apenas com os trabalhos em si, mas com os diálogos possíveis e necessários a partir dos diferentes jeitos de avaliá-los e comentá-los.  E nesse momento, a pesquisa se veste de formação...

sábado, 21 de abril de 2012

Cinema, crianças e educação na feira do livro


A ideia inicial era participar de um bate-papo informal com professores na Feira do Livro de Joinville sobre o livro Crianças, cinema e educação: além do arco-íris. No entanto, tal idéia se transformou numa palestra sobre o mesmo para um público de cerca de 300 professores, com a apresentação de Solange Coral e a mediação de Roselete Aviz de Souza, que também relatou experiências de produção de audiovisual com crianças e adolescentes.

Nessa palestra/bate-papo ficaram evidentes as diferentes possibilidades de pensar o cinema:  como arte, cultura e educação. Educação que pode ser entendida como formação, transformação e auto-formação, onde as experiências  de leitor, espectador, intérprete e “co-autor” de livros e filmes pode se transformar em práticas educativas e culturais de professores e pesquisadores.

 O cinema na escola se justifica por ser  um cruzamento de práticas sociais diversas, por ser instrumento de difusão do patrimônio cultural da humanidade, por ser documento da história e pela possibilidade de educar para e com o cinema, diz Rivoltella. Com os filmes, temos a possibilidade de interagir com diferentes culturas, representações e imaginários e ter um repertório comum a partir desse  ambiente simbólico que envolve emoção, atividade cognitiva e investimento psicológico.

Se alguns filmes se colocam ao lado de outras produções da ciência, da arte e da literatura, certos filmes tem o poder de restituir o visível da realidade sociocultural no momento em que a história está se construindo.  Por tudo isso, podemos entender o cinema como instrumento de aprendizagem e objeto de conhecimento e enfatizar a possibilidade de educar para e com o cinema.  

No entanto, na maioria das vezes, os usos do cinema e dos filmes na escola nem sempre seguem tal perspectiva. Sendo uma das mídias mais utilizadas por professores em suas aulas, seja para enriquecer ou  ilustrar conteúdos, seja para instigar a temática de certos projetos, ainda é muito evidente o uso de filmes como “substituição”, sobretudo quando falta professores.  E o significado de tal prática pode ser problematizado diante de todo o potencial que os filmes trazem para a educação.

Na perspectiva dos novos letramentos, o cinema se transforma numa bela possibilidade de trabalhar os códigos da linguagem audiovisual  e suas produções de sentido  na esfera visual  (luz, cor, campo, planos; movimento dos personagens e das máquinas; cenografia; efeitos especiais; escrita; montagem) e na esfera auditiva (sons, falas, diálogos; ruídos, música) junto com os demais  tipos de representação: escrita, visual, musical, etc.




Pensar o cinema na prática pedagógica  implica em pensar num planejamento da atividade que envolve o cenário da exibição, critérios de escolha e adequação dos filmes, informações sobre a contextualização da obra (filme e diretor) para provocar curiosidades,  momento da exibição/ fruição/ apreciação, e dependendo da intencionalidade educativa, é possível aprofundar as primeiras impressões através de possíveis análises e interpretações e de possíveis percursos de produção, situando o que é/pode ser um filme para os alunos e para o professor.

Nesse sentido,  o percurso didático para trabalhar com cinema na escola na perspectiva da mídia-educação, no livro Crianças, cinema e educação: além do arco-íris, pode ser um ponto de partida.

Afinal, são muitas as possibilidades de pensar um cinema que educa, sobretudo quando ele  emociona, diverte, transforma e faz pensar .

domingo, 18 de março de 2012

Trabalho em rede: educação, articulação social e desenvolvimento sustentável

A Exposição “Energia”, organizada pelo SESC/SP, Itaquera (concepção artística de Ari Perez e Tero Engenharia ea curadoria científica de pesquisadores da FAPESP) teve até agora cerca de 500 mil visitas. Com grande apelo visual e interativo, o público em geral e as crianças em particular entram  em contato com o tema da energia de maneira ampla e diversificada: uma viagem pela história da humanidade a fim de perceber as implicações ambientais da ação humana e nesse percurso, são instigados a buscar soluções.

Entre os desdobramentos de tal exposição, surgiu a idéia de reunir professores e pesquisadores da área da educação, ciência e tecnologia e articulação social a fim de propor  um diálogo entre estes temas a fim de discutir possíveis ações educativas tendo como horizonte uma idéia de “sociedade mais justa e ambientalmente sustentável.”

 O  Encontro : trabalho em rede. Diálogos entre educação, articulação social e desenvolvimento sustentável, aconteceu  no SESC Itaquera, São Paulo, no dia 16/3/2012 e começou com Danilo Santo Miranda, diretor Regional do SESC-SP, discutindo Cultura e Educação e a educação como cultura,  onde defendeu a ideia de uma sociedade educativa em que o desenvolvimento econômico e tecnológico podem gerar outras perspectivas de mudança  do ponto de vista social e outras formas de pensar  a educação . Em seguida, Viviane Mosé falou sobre  Conflitos de Energia: necessidades, desejos e a busca pela sobrevivencia humana destacando  a construção de novos valores nessa sociedade em mudança, onde a educação só terá sentido se for voltada para a vida.
No painel Educação, Tecnologia e Articulação Social, com participação do prof. Fábio Botelho Josgrilber  e da profª Maria da Glória Marcondes Gohn,  comecei abordar o tema partindo do ponto de vista da educação com as perguntas: que pessoas  estamos formando? Que mundo estamos deixando como herança presente e futura às crianças e aos jovens hoje e em devir? Temos trabalhado a produção de subjetividades na escola no sentido da construção de identidades individuais e culturais como reconhecimento da diversidade e pertencimento?
Tendo como pressuposto a idéia de F. Guattari, de que precisamos avançar a discussão no sentido de pensar uma articulação ético-política, “ecosofia”, entre os registros ecológicos:  do meio-ambiente, das relações sociais,  e da subjetividade humana; e que  se a ideia de sustentabilidade coloca o sujeito em perspectiva, precisamos perguntar no presente como vai ser a vida no futuro, considerando que as instituições tradicionais não estão mais respondendo às questões identitárias referentes à construção de sentido diante da complexidade do mundo contemporâneo.

Ao recuperar o conceito de noosfera e ecologia da mente, do jesuíta Theilhard de Chardin, a intenção era de lembrar que assim como há a atmosfera, há também o mundo das idéias - formado por produtos culturais, pelo espírito, pelas linguagens, teorias e pelos conhecimentos - que alimentamos quando pensamos e nos comunicamos. Nesse processo, haveria um “estado do olhar” ou uma leitura comunicacional do mundo social (e dos seres vivos) que entende a comunicação não apenas como um ato individual de um para outro e sim como um fato cultural, uma instituição e um sistema social, ou seja, uma “orquestração ritual, eminentemente sensível e sensual”, como dizia  Gregory Bateson.

Nesse processo comunicacional e nessa noosfera, um novo espírito de ambientalismo  pode haver vários cruzamentos:  o tecnológico com bio-social, o biológico com o biofísico, e o social com o simbólico, como diz Manuel Pinto. E essa idéia de clivagem do simbólico com o resto da vida, remete às interações que existem entre esses vários níveis de comunicação.

Pensar a comunicação da sociedade contemporânea implica pensar no protagonismo da mídia e isso sugere a necessidade da mídia-educação. Afinal, na sociedade da informação/do conhecimento e na sociedade em redes, a informação está disseminada em todos os espaços e o conhecimento como certeza e incerteza  é atravessado por outra sensação: o medo. O medo da natureza (que vai acontecer com o planeta? Retomando um problema pré-modernos), o medo diante da insegurança (promovida por tantos tipos de violência a que somos submetidos), e o medo do novo (sobretudo diante das incertezas e das interações promovidas pelas “novas” tecnologias).

A constatação de que as ferramentas da “web 2.0” estão transformando as práticas individuais e sociais, que a multimedialidade propicia novas formas de sociabilidade  e que a portabilidade e conectividade permite maior autonomia em relação aos consumos midiáticos, a interatividade provocada pelos “novos meios” promove outras práticas culturais que interpelam os que trabalham com educação.

Nesse sentido, algumas  dimensões da cidadania no século XXI vão requerer  um grau de conhecimento que até agora poucos de nós têm, e isso requer um sujeito que saiba não apenas ler/interpretar os produtos da mídia e da tecnologia, mas que também seja capaz de questionar suas estratégias e se expressar  nessas e em outras direções. E isso sugere a idéia de uma cidadania instrumental e de pertencimento social, como diz Rivoltella.

Considerando a distância entre os que têm e os que não têm acesso ao acervo da cultura propiciado pelas mídias, o papel da escola hoje se amplia em relação às mídias  tradicionais, e a questão não é apenas evitar o consumo passivo mas sobretudo educar para um consumo e uma produção responsável, visto que os sujeitos são cada vez menos simples leitores e cada vez mais produtores de mídia. Nesse sentido, a idéia de inclusão digital vai além da dimensão do acesso e deve ser também uma inclusão social, política e cultural.  

E é aqui que entra a mídia-educação, seus objetivos e perspectivas  no sentido de uma concepção ecológica de mídia-educação que implica fazer educação usando todas as mídias (fotografia, rádio,cinema, televisão,  computador, internet, celular, videogame, redes sociais) recuperando o lúdico, o simbólico, o corpo em movimento e o contato junto a natureza. Afinal, não podemos deixar de discutir qual o papel da escola e dos professores diante da pergunta: quando crianças e jovens mergulham nos ambientes multimídia da cultura digital, eles se distanciam (ou se distanciariam) da experiência física dos ambientes naturais?

Pensar nesses espaços e ambientes no s leva a imaginar uma reconfiguração da escola a partir das dimensões tecnológicas, organizativas e simbólicas da mídia-educação  pensando também a formação profissional e o novo perfil do professor, e a necessidade de construir suas competências midiáticas, tecnológicas e culturais a partir de uma ideia de sustentabilidade.

Assim, como criar projetos com produção de sentidos ética e esteticamente tocados pela diversidade e sustentabilidade? Alguns projetos e diversas boas práticas observadas em uma pesquisa sobre Os usos das mídias, os consumos culturais e a formação de professores em mídia-educação parecem ir nessa direção. Entre tantas experiencias, citamos o projeto Guardiões de energia*, que está estreitamente vinculado à temática que suscitou o referido encontro, como uma possibilidade de uma prática didática, mídia-educativa e sustentável que pode fazer a diferença.

* O projeto coordenado pela Profª de Biologia, Elaine Seiffert, na  E. B. João G. Pinheiro, em Florianópolis, SC, recebeu apoio da Eletrosul e o prêmio Bandeira Verde, do Programa Eco-Escolas (Projeto educativo internacional promovido pela ong  Foundation for Environmental - FEE com apoio da Comissão Européia)  por cumprir os 7 passos programa: Conselho Eco-Escolas, Auditoria ambiental, Plano de ação, Monitorização/Avaliação, Trabalho curricular, Divulgação à comunidade, Eco-código do qual fazem parte.