A Arvore da vida, do
artista austríaco Gustav Klimt, pode ser um bom símbolo para fechar os posts do ano, visto que a obra se compõe
de 3 partes/painéis: a árvore, na parte central, e as outras duas partes
que representam a Espera e o Abraço. Árvore como a força de vida, com toda a sua
beleza, seus enigmas e desafios; o abraço, o carinho, e a gratidão a todos que
compartilham as pequenas histórias que construímos; e a espera do que virá...
Um espaço de conversa sobre educação, mídia, cultura e arte na pesquisa e na formação.
sábado, 31 de dezembro de 2016
segunda-feira, 14 de novembro de 2016
Estudantes, Do It Yourself e entornos tecnológicos de aprendizagens em diálogo
Por vezes, tão importante quanto fazer
referência aos eventos que participamos, pode ser compartilhar um pouco algumas
cenas dos bastidores, que nesse caso fizeram a diferença para mim. No dia
4/11/2016, ao caminhar pelas ruas de Barcelona procurando o Museu de Arte
Contemporanea, MACBA, local onde se realizaria o Simpósio Focusing on the learning: The Philosophy at School and
University to Forster Student Agency and Collaborative learning, encontrei
um homem que era de Londres e que estava na mesma situação, ou seja, também
estava indo ao evento. Quando falou onde trabalhava, na London School of
Economics, disse-lhe que conhecia o trabalho de alguns professores de lá, como
Sonia Livingstone, e quando ele disse que trabalhava com ela, aos poucos descobri
que ele era Julien Sefton-Green, o professor que faria a conferencia de
Abertura no simpósio. Logo em seguida chegamos ao local e encontramos os
anfitriões do evento, Fernando Hernandez e Juana Sancho Gil, professores da
Universidade de Barcelona. Narrei esse encontro pois esse acaso possibilitou
uma troca muito particular durante o evento e assegurou outros olhares às
demais participações.
O sentido da aprendizagem Do It
Yorself, que no contexto da pesquisa foi entendido como “faça você mesmo
colaborativamente”, foi a base da
discussão que considera os estudantes no centro da experiência de aprendizagem,
criadores dos seus próprio processos e materiais/produções de modo colaborativo.
A ênfase no potencial e na capacidade de agência dos estudantes, no
desenvolvimento de suas competências digitais e nas práticas colaborativas com
o uso de tecnologias permeou a discussão das diferentes experiências. Como a programação
do simpósio estava muito intensa, farei uma breve síntese para compartilhar
alguns pontos que chamaram minha atenção.
Na conferência de abertura, os desafios de ensinar e aprender na
sociedade digital, com o tema Do-it-Yoursef: a cultural history of digital
autodidactism, Sefton-Green refletiu sobre como o autodidatismo pode reconduzir os novos modos de aprendizagem
a partir da noção de “faça-você-mesmo” e da “cultura maker”. Pautado em
recentes estudos etnográficos que acompanharam jovens dentro e fora da escola,
o destaque para alguns episódios que evidenciaram aprendizagens autodidatas desencadeadas
pelo acesso ao Youtube e seus tutorais. Interessante destacar que a partir dos exemplos dado, sobre
aprendizagem de música, também foram evidenciadas algumas práticas clássicas que
requerem disciplina, ensaio e dedicação. Nesse sentido, Sefton-Green também
enfatizou algumas características da especifidade de tais aprendizagens informais e as possibilidades deste tipo de canal se
tornar um recurso-chave para a educação formal, desde que se atente para a
questão da disponibilidade e qualidade do que é proposto e/ou escolhido. Ele também
discutiu alguns mitos presentes nessa noção de agência, de ativismo, do digital
e do potencial democrático que está redefinindo novas formas de aprendizagem e
de participação. Por fim, ele destacou a necessidade de mais pesquisas a
respeito, sobretudo em contextos em que a diferença de capital social e
cultural e sua distribuição desigual repercute de modo diferente em certas
práticas e que não podem ser consideradas como padrão. Ou seja, se a
distribuição é desigual, temos que ter essa consciência em nossas análises. Parece
óbvio, mas por vezes certas visões celebratórias deixam de explicitar tais questões,
que certamente são muito instigantes.
Ao expor alguns resultados e
desafios do projeto DIYLab, o professor Fernando Hernandez situou alguns
pontos-chaves que fundamentam a pesquisa e redefinem certos conceitos: DIY; criatividade;
auto-avaliação; competências digitais; o trabalho com escolas e cultura de troca
e intercâmbio entre realidades sociais diversas; a construção e o exercício da noção de agência, no presente e construindo
o futuro hoje; e a reflexão constante sobre os desafios do percurso. Assim, para ele, o DIY não é aprendizagem
individual, a criatividade é um processo
coletivo, se aprende com os outros para
compartilhar e seguir aprendendo, e o sentido de colaboração se evidencia em
todo o processo. Ou seja, o DIY não é
apenas “fazer coisas” e sim uma filosofia.
Na continuidade, as experiências, as
questões, os desafios e as especificidades da pesquisa nos contextos finlandês,
tcheco e catalão a partir das narrativas de pesquisadores e professores de
diferentes níveis de ensino. Relatos de experiências sobre a filosofia DIY no
ensino superior e em outras instituições enfatizaram o potencial transformador
da cultura e do movimento “maker” na Universidade de Barcelona, na Universidade
de Girona, no Centro de Arte e Criação Industrial de Asturias, e na Universidade do Missouri.
Na mesa de convidados externos que discutiram
a pesquisa foram apontados diferentes aspectos
conforme as procedências e lugares de cada um de modo a problematizar
certos aspectos que emergiram na discussão. Também destaco uma mesa redonda com professores e estudantes
evidenciando o que mais aprenderam com a participação no projeto.
No encerramento com os coordenadores
de cada equipe, a professora Juana Sancho destacou a importância do trabalho de
colaboração, pois “o grupo chega onde o indivíduo não chega”. Entre as
dificuldades, ela sublinhou a rigidez do
sistema educativo e certa “colonização
mental”, sobretudo na universidade, o que nos desafia a “desconstruir para
construir”.
A discussão desencadeada no simpósio
teve certa continuidade com a participação de dois convidados na disciplina
ministrada por Profa. Juana Sancho na UB.
A professora Mariana Maggio, da Universidade de Buenos Aires, enfatizou as práticas narrativas que articulam
experiências de aprendizagem a partir de alguns pilares que tem trabalhado na
formação universitária portenha: combinação, intermitência, documentação e alteração de formas. A “didática ao vivo” e
as diferentes formas de socialização dão visibilidade às mudanças pedagógicas
propiciadas pela filosofia DIY. Por sua
vez, o professor Ralph Cordova, da Universidade do Missouri/St Louis , EUA, refletiu
sobre algumas perspectivas teóricas desse movimento maker a perspectiva cultural e do fazer; a
perspectiva da alfabetização e linguagens; a perspectiva da oportunidade de
aprender a aprender; e a perspectiva das paisagens culturais para a
aprendizagem. Por fim, a reconstrução do processo, o destaque para a
possibilidade de implicar o aluno e de transformar as situações...
Desafio imenso se considerarmos os
atuais cenários em que vivemos!
domingo, 6 de novembro de 2016
Palavras que educam
O título acima é um fragmento do evento que
participei na UCSC de Piacenza, no dia 3/11/16, “Quando dire è dare forma: la parola che educa”, uma espécie de aula inaugural do Curso de Ciências da
Formação. A composição da mesa inicial envolveu diferentes olhares sobre o tema
da palavra: literatura, pedagogia, comunicação e filosofia. Em comum, a
centralidade da palavra dita e não-dita nas relações pedagógicas.
Na dimensão literária, a metáfora a
partir da história de Pinóquio (Carlo Collodi) e seus personagens Grilo Falante,
Lucignolo/Pavio e Gepeto, a Professora Paola Ponti enfatizou os sentidos da
palavra como consciência, sedução e mediação. Por fim um olhar à humanidade de Pinóquio construída/obtida
também a partir de suas narrativa, sobretudo a partir da pergunta sem
julgamento de Gepeto, como por exemplo: “o que aconteceu”, que propicia um novo
modo de falar e redimensiona o sentido do “dar a palavra”.
“Dar a palavra” que também pode ser
entendido no processo educativo de
alfabetização cultural e na promoção do
diálogo, como enfatizou o Prof. Pierpaolo Triani. Para ele, somos formados e
plasmados de uma pluralidade de fatores: ambiente, relações, escolhas e das
palavras que encontramos, ouvimos, dizemos, e entendemos. Para ele, “dar a palavra” é diferente de dar
a voz, porque essa todos temos”, e é essa condição de entender a palavra do
outro e de dizer a própria palavra que assegura a construção e expressão de
subjetividades, de interpretação de mundos e do diálogo no sentido proposto por
Paulo Freire, em referência ao educador brasileiro. E continuou sua fala trazendo grandes
educadores e seus domínios das palavras, com ênfase ao desafio de hoje, quando
nossas palavras estão sob controle das
mais diversas naturezas construindo nossa comunicação.
Na continuidade, o olhar da
comunicação trazido pelo Prof. Piermarco Aroldi problematizou a palavra em rede
e como as formas de conversação produzem
a sociedade. A partir de uma breve síntese histórica, desde a etimologia da palavra
até uma fenomenologia da conversação, a evidencia do quanto as palavras que
usamos criam condições para viver em comum.
Aliás, a arte da conversação é uma forma cultural que foi se construindo
conforme o contexto sociocultural, com as mais diversas conotações de seus discursos sociáveis e suas regras convesacionais que constroem formas sociais, como por exemplo, as conversações: civil, agradável, polida,
cortes, sempre buscando expressar “a arte de estar juntos”, o que não exclui os conflitos. Para Aroldi, hoje, a
conversação online assume uma configuração muito diferente que tece a trama
social, e de um lugar que não é público nem privado. Ele pergunta: que regra conversacional
estamos criando? A que tipo de sociedade estamos dando forma com nossa conversação
social mediada pela web? Nesse exercício de convivência civil que depende
certamente da tecnologia, mas sobretudo de nossa perspectiva ética, Aroldi nos
convoca a pensar nas formas de nossa conversação e sua qualidade social, visto que somos
responsáveis pelas palavras que usamos.
Diante de tal responsabilidade,
Elena Colombetti destacou a relação entre palavra e identidade a partir do “eu
narrável” e ponderou a dificuldade de expressar e dizer quem somos. Os limites
do nome, das escolhas, do que fazemos, de nossa história e das relações que
estabelecemos. Fotografias e retratos para olhar o instantâneo e buscar o mais
profundo. Para dizer quem somos com palavras, temos que narrar um vida em
relação com o outro e com a pluralidade das histórias que ouvimos e contamos na
temporalidade do ser no tempo. Contradição de saber que o ser é mais amplo que
a palavra que o constitui.
Em meio a tantas palavras e
sentidos, como não pensar nos usos que fazemos ou que deixamos de fazer de
nossas palavras nos mais diferentes espaços e ambientes? Afinal, num contexto
de “pós-verdade” com que nos deparamos nesse momento, o quanto tais palavras
estão nos (des)construindo e consequentemente (des)construindo realidades?
terça-feira, 25 de outubro de 2016
Imagens e palavras: História em Quadrinho como experiência estética
Pensar a História em Quadrinho, HQ,
como arte que nasceu no contexto de um jornal e com forte característica
caricatural há mais de cem anos é, de certa forma, fazer uma viagem no tempo,
de 25/10/1896 até o dia de hoje. Foi mais ou menos isso que aconteceu no
Encontro “Imaggini&Parole:il fumetto come esperienza estética”, com
Mariagrazia Portera, no contexto de um Curso de “Experiência Estética na
Formação de Crianças”, ministrado pelo Prof. Roberto Diodato, na UCSC de
Piacenza.
Ao percorrer as diferentes etapas da história do HQ (o surgimento com
Yellow Kid, a fase mais realista, o endereçamento diferenciado, a crise do pos-guerra e com a difusão das novas mídias, a
crítica por certas temáticas e a humanização de super-heróis, até a passagem do
comic book ao graphic novel, que revolucionou a HQ. Com isso, começa a se ver a
HQ de autores, a especialização autoral e o longo tempo de produção foi construindo outro estatuto para esse híbrido
de textos e imagens e seus processos de leitura, tanto como experiência
unitária como multissensorial.
Mas o que significa pensar a HQ como experiência estética? Para alguns estudiosos, a HQ faz emergir diante de nossos olhos diferentes aspectos que fazem parte da interação leitor-autor no processo de fruição de uma história no espaço e tempo. E esse paradoxo do tempo na HQ envolve o congelar o tempo no instante singular para narrar e deixar fluir, completando os espaços brancos entre os quadros com a imaginação criativa do leitor.
Entre as diferentes estratégias de endereçamento que solicitam atitude
ativa do leitor, os diferentes tipos de balões bem como a disposição dos quadros que modifica o ritmo
da leitura. Além disso, o ato de virar a página também pode ser considerado
como uma surpresa que se apresenta nesse tempo próprio de fruição.
Nas possíveis analogias e diferenças entre HQ e cinema, destaca-se a
percepção da simultaneidade. Aliás, é interessante perceber como o filme e a HQ
representam a simultaneidade com diferentes formas de percepção. Como exemplo,
Meta-Maus, de Art Spiegelman, e a justaposição entre passado e futuro que torna
o presente e passado sempre presente; o
HQ Watchmen e sua adaptação cinematográfica solicitando diferentes formas de
captar a simultaneidade no tempo; e também Here, de Richard Mcguire e sua verso
digital em que o leitor decide o que e em que tempo quer ver a história na possibilidade
de captar a ordem e simultaneidade dos planos que se sobrepõem. Como isso, mais uma vez em questão a ideia do autor e do leitor-autor.
Por fim, entre diversas modalidades que expressam essa obra de arte, o
lembrete de que se aprende a ler/olhar/construir nexo na HQ, processo que
envolve imaginação, habilidade lógica, atenção, paciência e satisfação que deriva dessa feliz interação com o mundo.
Diante disso, como não lembrar dos gibis de nossa infância? Das coleções
dos nossos amigos, das trocas, de certos personagens que nos acompanham até
hoje? Experiências estéticas, intuições e paixões que revelam um potencial a
explorar com outros olhos e que na educação pode ser uma forma de participar da
experiência.
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