quinta-feira, 9 de junho de 2016

MUBA: um espaço lúdico de arte e cultura para as crianças


O Museo dei Bambini, MUBA, é um espaço plural dedicado às crianças, um  centro permanente de projetos e atividades culturais e artísticas para crianças de todas as idades e um exemplo de boas práticas no panorama museal italiano. A sede do Museu situa-se no interior do Parque della Rotonda da Besana, um lindo prédio histórico (uma ex-igreja) com um imenso jardim que a Prefeitura de Milão concedeu à Fundação MUBA, mediante aluguel, desde 2014. Aliás, é bom lembrar que Milão foi eleita uma “cidade amiga das crianças” pela Unicef.

Entre tantos atrativos, o que encanta as pessoas no MUBA é a atenção cotidiana às crianças e a diversidade de projetos, oficinas e outras atividades que são propostas, tanto de caráter permanente como temporário e/ou pontuais. Por exemplo, no dia que visitei o MUBA, no feriado da republica italiana, o museu parecia um grande pic-nic, e não havia mais vagas para as oficinas naquele dia, que eram: Impariamo a fare il pane, "Aprendemos a fazer o pão”, organizada em colaboração com a Opera San Francesco e a  Associazione Panificatori di Milano

Crianças brincando e amassando o pão com seus aventais em espaços adequados e preparados para tal atividade evidencia um evento de grande valor educativo - inclusive essa oficina foi um bis diante da grande procura que houve na edição do ano passado. “Didolab” é outra oficina em que as crianças e seu pais vivem uma experiência de novas sensações e emoções a partir de estímulos sensoriais que promovem a vivência lúdica de conceitos fora de escala, de imersão, de novos instrumentos e de alto impacto visual. Um percurso que solicita formas de brincar conforme os espaços propostos, os materiais e as ferramentas. Uma proposta acompanhada pela simplicidade de produtos naturais e outras surpresas.

Como exposição-laboratório, Vietato non toccare, “Proibido não tocar”, é um convite ao brincar com arte, uma  mostra-jogo interativa para crianças de 2 a 6 anos inspirada no trabalho do artista e designer italiano Bruno Munari. Realizada pelo MUBA e Associazione Bruno Munari, também se oferece uma proposta formativa dedicada aos adultos. Vale ressaltar que durante as visitas de crianças e seus responsáveis, outros adultos precisam aguardar a sua vez para conhecer  a proposta, cuja visita, que também pode ser agendada, acontece apenas com acompanhamento da equipe. Do livro Bruno Munari, compartilho as palavras de V. Sgarbi: “Poeta dos objetos insignificantes, arquiteto do nada, Bruno Munari conhece como ninguém o alto valor do jogo, o prazer infantil da concentração e da seriedade. Tudo se aprende melhor quando parece sem finalidade, puro divertimento, e não só intelectual mas também manual (…) Tudo é simples, atraente e espirituoso. Tudo é para todos, e mais ainda, para as crianças.”

Não poderia deixar de mencionar a oficina Radio MUBA, uma proposta radiofônica em que as crianças aprendem “a fazer rádio” com profissionais da RAI Radio 2. O rádio é considerado um instrumento de educação não formal cada vez mais presente também em projetos escolares, e essa oficina de aprendizagem radiofônica objetiva desenvolver uma série de competências comunicativas, cognitivas, afetivas, e sociais. Nessa proposta, as crianças descobrem os mecanismos que estão na base da comunicação radiofônica, inventando-se como radialistas, jornalistas e produtores realizando seus próprios programas. Aqui o viés da mídia-educação evidencia o sentido da proposta, que também ecoa nos programas feitos pelas crianças da Radio MUBA, a “Rádio das Crianças” ou uma “Rádio grande feita por pequenos”, como se pode ouvir nas vozes infantis.

Enfim, na diversidade de oficinas oferecidas pelo MUBA, outra proposta que também chama atenção é o Campus Estivi, um “acampamento” de verão. Durante as férias escolares, o museu propõe às crianças uma semana de jogos, instalações interativas e todas as atividades previstas no calendário do museu, além do parque. Organizado a cada ano, a atividade conta com uma equipe de educadores que adaptam as atividades cotidianamente, conforme as características dos participantes: “Com base nas suas exigências, os dias são estruturados sempre de maneira diferente, para garantir a máxima liberdade expressiva e criativa dos pequenos que participam daquele dia no museu”. 

E para quem não resiste a dar uma espiada nos livros, a livraria interna do Museu é mais um pequeno deleite para finalizar a visita, que além do brilho no olhar, leva a certeza do respeito às crianças e aquela inspiração tão própria das coisas simples e belas!


segunda-feira, 30 de maio de 2016

O poder da imagem



No contexto de um Seminário sobre Mídia e Aprendizagem realizado nos dias 23 e 24/5/2016 na Università Degli Studi di Foggia, UNIFG, o tema Cinema e Formação foi discutido na Mesa Redonda “O poder da imagem”, com participação dos Professores Roberto Diodato e Pier Cesare Rivoltella, ambos da Università Cattolica del Sacro Cuore di Milano. Como mediadora da mesa, a convite do Prof. Pierpaolo Limone, diretor do ERID Lab “Educational Research and Interaction Design”, destaco alguns pontos interessantes desse encontro tão inspirador:

1. Um primeiro aspecto a destacar é a proposta de pensar o olhar da Filosofia/Estética sobre a imagem cinematográfica ao lado do olhar da Educação/Didática.  Na busca de um diálogo a partir de tantas possibilidades que a relação com a imagem coloca em jogo, o desafio de um olhar multidisciplinar e multimodal que implica certo deslocamento e com isso amplia o olhar do lugar da educação.

2. Na perspectiva da filosofia, Diodato destaca a imagem e seu valor de representação de um “ausente presente em outra substância”, enriquecido pela mediação. Ao analisar o dispositivo de mediação, retoma Morin e o estupor diante desse universo imaginário que constitui tal realidade para pensar o universo cinematográfico como lugar tecnológico contemporâneo na construção do imaginário, que no seu duplo também revela a projeção de nós mesmos. O destaque para alguns conceitos filosóficos elaborados através do cinema - como por exemplo, tempo e movimento em Deleuze – ajuda a entender “o devir da imagem em movimento como fluxo da imersão do visível no tempo.” Um devir narrrado de uma história que se transforma em visão, como imagem que escreve o mundo e que é substancialmente relação.

2. Relação que também foi enfatizada por Rivoltella, ao trazer o poder da imagem  e seus usos educativos a partir de uma narração autobiográfica de suas experiências com o cinema. A retomada de sua experiência na construção do gosto pelo cinema ainda como estudante, me lembrou a importância da “experiência de iniciação” que fala Bergala. Iniciação que nesse caso se transformou em estudos posteriores sobre o tema e sobre os usos possíveis do cinema na educação: pré-textual (educar com o cinema – a imagem como suporte), textual (educar ao cinema – imagem como objeto de reflexão), processual (educar através do cinema – imagem como espaços de encontro, como dispositivos de processos suscitados no grupo para elaboração).  Reflexões atualizadas pelos estudos no campo da neurociência e neuro-estética, que problematizam e esclarecem como a imagem opera a mediação entre sujeito/cérebro e mundo bem como as possibilidades educativas do cinema nessa relação. Possibilidades de uso de imagem que podem fechar ou abrir o sentido, que podem produzir certos “choques visuais” diante da ambiguidade da imagem e assim favorecer a discussão, e que podem ainda problematizar a simulação incorporada,  a ação ativada a partir da imagem/visão, nesse caso o cinema entendido como dispositivo vicariante.

3. Nessa reflexão, o espaço da didática e o ponto de vista pedagógico que interessa diante das possíveis identidades projetivas que as imagens em geral e o cinema  em particular oferecem, seja como retorno do sujeito sobre si mesmo, seja como possibilidade de motivação. Desafio de trabalhar as ambiguidades da imagem, perceber o que mostram e escondem e como nos envolvem, para abrir a discussão sobre como nos relacionamos com elas e com outros textos da cultura.


4. Por fim, a discussão sobre o “bombardeio e a banalização do uso de imagens na escola”, por vezes sem sentido e sem contexto, que parecem anestesiar e que pouco sensibilizam os estudantes [nessa sociedade do espetáculo, da informação, da imagem e da retórica da inovação]. Necessária discussão sobre a escolha e seleção das imagens que usamos, e que certamente transcende o espaço da escola para ser problematizada também nos espaços da formação universitária e no trabalho docente em geral. Enfim a reflexão sobre a cultura didática e a cultura da imagem  de modo a problematizar a tradição didática que trabalha com a imagem residual e com o uso da imagem sem cultura, sem reflexão sobre a relação imagem-texto, nem sobre a representação visual do conhecimento e suas possibilidades para construir, de fato, um espaço semiótico de aprendizagem significativa.

Imagem: Girl with a Pearl Earring (Jan Vermeer, 1665-1667)
http://www.essentialvermeer.com/catalogue/girl_with_a_pearl_earring.html#.V0wLUyN946g

sábado, 30 de abril de 2016

O brincar e as telas

Há muito tempo se discute a importância do brincar no desenvolvimento da criança, e diversos são os autores que se debruçaram sobre o tema desde o início do século passado. Ainda nos anos 90,  na minha em pesquisa de mestrado Jogo brinquedo e cultura na educação infantil, publicada no livro No mundo da brincadeira (Cidade Futura, 2000) entendia a brincadeira na tripla dimensão de ser linguagem, forma de conhecimento/desenvolvimento e objeto sociocultural. Inspirada na pesquisa Imagens de Infância, desenvolvida no início dos anos 90 por Telma Piacentini, minha então orientadora, ela enfatizava a importância do brincar na construção de uma infância feliz e saudável. De lá para cá essa tema acompanha minha trajetória profissional, com participação na instalação do Museu do Brinquedo da Ilha de Santa Catarina, e com diversas interfaces de pesquisa: os estudas da infância, a mídia-educação, a formação de professores e a cultura digital. Os atravessamentos que configuram o brincar no contemporâneo, sobretudo quando certas tecnologias podem ser entendidas como brinquedos, tem nos desafiado ainda mais.    


Recentemente, ao ler o livro do psiquiatra francês e doutor em Psicologia, Serge Tisseron, Diventare grandi all’epoca degli schermi digitali (Crescer na época das telas digitais), ainda não traduzido no país, essa questão novamente me inquietou. Afinal, não é de hoje que observamos o brincar cada vez povoado por personagens de filmes, games e animações provindas das mais diversas telas e de suportes transmidiáticos. Na contracapa do livro, uma síntese: “Com que idade e com quais modalidades introduzir as telas – da televisão, do videogame, do computador – na vida das crianças?  A fórmula 3-6-9-12 indica quatro etapas fundamentais: 3 anos, entrada na educação infantil; 6 anos nos anos iniciais do ensino fundamental I ; 9 anos encontro com a leitura-escrita; 11/12 anos, passagem para o ensino fundamental II. Assim como existe regras para introduzir uma dieta na vida da criança com leite, verdura e carne, do mesmo seria possível imaginar uma “dietética” das telas para aprender a usá-los corretamente. Renunciando a duas tentações : idealizar estas tecnologias e demonizá-las. Um texto voltado aos pais e professores, para entender e aprofundar um nó educativo cada vez mais central”.

O livro discute as possibilidades e os desafios das telas (e consequentemente do brincar) em cada idade, mas sempre enfatizando a importância de conversar e negociar com as crianças.
Tisseron participou do manifesto elaborado pela Accademia delle Scienze, que se configura também como forma de responder às perguntas mais candentes de pais e professores, sobre quando e como usar as telas na vida das crianças. Destacamos: “Antes dos 3, evitar as telas.  Não a console e tablet pessoal antes dos 6 anos. Internet, depois dos 9 anos. Redes sociais, depois dos 12 anos.” (...) “Em qualquer idade, escolher os programas junto com as crianças, limitar o tempo de consumo, convidar as crianças a falarem sobre o que  assistem ou fazem encorajando as suas produções”.

Certamente são questões polêmicas que merecem uma bela e longa discussão e que não podemos nos furtar, sobretudo diante da diversidade de práticas culturais que as crianças das mais diferentes idades constroem no contexto da cultura digital, com ou sem mediação adulta. O que interpela ainda mais os que atuam com a formação.

Coincidência ou não, alguns dias após finalizar a leitura do livro para a escrita de uma resenha, me foi compartilhado um vídeo sobre o último documentário do polêmico M. More, Where to Invade Next, que pretende mostrar “como se vive em diversos países da Europa” (Itália, França, Finlândia, etc.) para “aprender a viver melhor”. O documentário foi exibido  em diversos festivais mas há um recorte interessante sobre o brincar, em que ao falar da educação finlandesa,  enfatiza a importância que o brincar assume na educação das crianças. Não sem ironia, ele mostra que o tempo do brincar assegurado na escola das crianças é/era um dos segredos  do sucesso da educação [não apenas] daquele país.


Evidentemente, a diversidade das questões sociais, econômicas e culturais que atravessam os mais diferentes contextos devem ser consideradas, mas nunca é demais reafirmar a importância do direito de brincar.